Investigação revela rede global de homens que compartilham vídeos de mulheres dopadas e violentadas

Quais as chances de um novo desastre nuclear, como o de Chernobyl?
Apoiadoras agradeceram a Gisèle Pelicot, que disse no tribunal que esperava ajudar outras vítimas.
Reuters via BBC
Uma investigação da CNN expôs a existência de uma rede internacional de homens que compartilham vídeos e fotos de mulheres dopadas, inconscientes ou sedadas, filmadas e violentadas sem saber. O caso, que lembra a história de Gisèle Pelicot e outros episódios recentes na Europa, mostra que os agressores não são figuras excepcionais, mas homens comuns que se organizam em fóruns, grupos privados e sites pornográficos.
O material circula em fóruns, grupos privados e sites pornográficos, onde os participantes compartilham técnicas, incentivam uns aos outros e discutem formas de escapar da justiça. A descoberta reacende o alerta sobre crimes sexuais cometidos dentro de casa, muitas vezes por parceiros íntimos.
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Um dos sites citados é o Motherless, plataforma pornográfica que registrou 62 milhões de visitas apenas no mês de fevereiro. Segundo a CNN, ele abriga mais de vinte mil vídeos de mulheres dormindo ou sedadas, um tipo de conteúdo que acumula centenas de milhares de visualizações. A dimensão do fenômeno levanta a pergunta: quantas mulheres no mundo podem ter sido vítimas sem saber?
A história de Gisèle Pelicot, francesa violentada pelo marido e por dezenas de outros homens, ganhou repercussão internacional justamente por mostrar que os agressores podem ser homens comuns, de qualquer idade ou profissão.
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A investigação atual, iniciada pelas jornalistas alemãs Isabell Beer e Isabel Ströh e aprofundada pela CNN, confirma que o caso de Pelicot está longe de ser isolado.
A emissora norte-americana identificou mulheres vítimas desse tipo de abuso em diferentes países. Os jornalistas se infiltraram em grupos de chat onde homens trocam conselhos sobre como dopar parceiras, como filmá-las sem que percebam e como evitar rastros digitais. O anonimato e a sensação de “fraternidade masculina” nesses espaços tornam o sistema difícil de desmontar.
Além dos vídeos, a investigação revelou a existência de canais dedicados exclusivamente a ensinar métodos de dopagem. Um deles, chamado “Zzz”, reúne homens que trocam informações sobre substâncias usadas para “submissão química”, incluindo proporções, modos de administração e horários considerados “mais eficazes”. Em uma das conversas, um homem afirma que "sua mulher não vai notar nada e não vai lembrar de nada”, enquanto oferece líquidos sedativos para venda.
A CNN localizou vítimas em diferentes regiões. Uma delas é Zoe Watts, de Devon, na Inglaterra, que descobriu que o marido, com quem foi casada por dezesseis anos, triturava os soníferos do próprio filho para colocá-los em seu chá, a fim de violentá-la e filmá-la inconsciente. Na Itália, uma mulher identificada como Valentina encontrou vídeos gravados pelo marido, com quem vivia havia vinte anos, nos quais aparecia sendo agredida após ser dopada com soníferos e álcool.
Reação na França e pedido de investigação
Na França, duas associações — a Fondation des Femmes e a M’endors pas, fundada por Caroline Darian, filha de Gisèle Pelicot — anunciaram que pretendem acionar a justiça francesa. Em comunicado, afirmam que os “delitos organizados, dentro de verdadeiras comunidades, incentivam e estruturam a violência”. Elas pedem a abertura de uma investigação preliminar, já que é altamente provável que haja usuários franceses envolvidos e novas vítimas no país.
As organizações também solicitam a intervenção da Arcom, órgão regulador do audiovisual, e da plataforma Pharos, responsável por denúncias de conteúdos ilícitos na internet. O objetivo é aplicar medidas de bloqueio e retirada de resultados de busca relacionados ao Motherless e a outros sites que hospedam vídeos de violações cometidas sob efeito de substâncias químicas.
Para enfrentar essas redes, a Fondation des Femmes e a M’endors pas defendem a criação de uma lei contra a violência sexista e sexual, nos moldes do que uma coalizão feminista reivindica há dois anos. Para elas, o caso expõe a urgência de políticas públicas capazes de lidar com crimes que se organizam no ambiente digital e se alimentam do anonimato.

A prisão em Dubai do homem que comandava império de drogas na Europa

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Dubai, cidade que tem o aeroporto mais movimentado do mundo, é abandonada pelos turistas
A guerra no Irã não alterou apenas o equilíbrio geopolítico no Oriente Médio. Ela também trouxe consequências inesperadas.
Uma delas se concretizou em meados de abril, quando as autoridades detiveram em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o irlandês Daniel Kinahan, indicado há anos como figura fundamental do crime organizado internacional.
Em abril de 2022, o governo americano impôs sanções após identificá-lo, ao lado de outros membros da sua família, como um dos líderes do chamado cartel Kinahan, uma rede vinculada ao tráfico de drogas, armas e assassinatos.
Considerado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e por agências policiais europeias como um dos criminosos mais influentes da Europa, Kinahan também mantinha vínculos com o mundo do esporte por meio da MTK Global, sua antiga empresa de representação (2012-2022). Ela chegou a trabalhar com mais de 100 boxeadores, entre eles os britânicos Tyson Fury e Carl Frampton.
As autoridades dos Emirados Árabes Unidos realizaram a prisão dentro de um contexto de maior vigilância no Oriente Médio, causado pelo receio de que redes criminosas internacionais aproveitassem a instabilidade gerada pela guerra no Irã.
A jornalista investigativa Nicola Tallant, especializada no crime organizado, afirmou que a prisão é muito significativa e representa um duro golpe para os Kinahan.
"As autoridades investiram muito tempo e recursos humanos para desmantelar o cartel Kinahan e esta é uma grande conquista", declarou ela à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
"Mas se trata de uma organização muito grande, com muitíssimo dinheiro", prossegue ela, "e não acredito que a eliminação de uma única pessoa consiga destruí-la."
"Minha opinião é que existem pessoas já preparadas para assumir a direção do cartel. Eles não irão se render, nem desaparecer, simplesmente porque Daniel foi preso."
A polícia irlandesa afirmou em um comunicado que a detenção demonstra a importância e "a necessidade de cooperação policial internacional para combater o crime organizado transnacional".
A operação foi possível depois que as autoridades irlandesas enviaram aos Emirados Árabes Unidos um expediente judicial, detalhando os supostos delitos de Kinahan e seu papel na rede criminosa internacional.
A partir deste documento, a Procuradoria de Dubai emitiu um mandado de prisão para iniciar os procedimentos legais para sua extradição.
Kinahan foi detido menos de 48 horas depois da emissão do mandado.
Segundo a polícia irlandesa, este processo ocorreu no âmbito do acordo bilateral de extradição entre a Irlanda e os Emirados Árabes Unidos, considerado fundamental para este tipo de operação conjunta.
Os Kinahan
Da esquerda para a direita: Daniel Kinahan, Christopher Kinahan pai e Christopher Kinahan filho
Paul Williams/Stephen Breen via BBC
A relação entre os Kinahan e o tráfico de drogas remonta aos anos 1980, quando o pai de Daniel, Christopher Kinahan, já marcava grande presença.
Em 1986, Christopher Kinahan foi preso por tráfico de heroína e condenado a seis anos de prisão. Posteriormente, ele cumpriu penas mais curtas na Irlanda, Holanda e Bélgica.
Mas ele teria ampliado sua rede de contatos, criando o que, no meio policial, chegou a ser conhecido como o Grupo de Crime Organizado Kinahan (KOCG, na sigla em inglês).
Em 2010, a KOCG já havia centralizado suas operações em Marbella, no sul da Espanha. Os irmãos Daniel e Christopher Kinahan Jr. eram suspeitos de ajudar o pai a dirigir o cartel familiar.
Naquela época, Daniel Kinahan já era bastante conhecido.
Em 2012, além de Daniel, seu pai Christopher e outros seis membros da família Kinahan receberam sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
Washington acusa o suposto cartel Kinahan de estar por trás de atividades ilegais na Irlanda, Reino Unido, Espanha e nos Emirados Árabes Unidos.
A jornalista Nicola Tallant passou anos investigando a família Kinahan. Ela explica que Daniel morou na Espanha até 2016, onde fundou a empresa promotora de pugilismo MGM (que, depois, viria a se chamar MTK Global), começando a projetar a imagem de um empresário legítimo.
Desde aquele ano, o grupo se envolveu em uma violenta disputa com a gangue rival Hutch.
"Um dos episódios mais marcantes foi a tentativa de assassinato no Hotel Regency de Dublin, na Irlanda, que desencadeou uma grande reação policial no país", relembra Tallant.
Acredita-se que os Kinahan tenham centralizado suas operações na cidade de Marbella, na Espanha, entre meados de 2010 e 2016
Getty Images via BBC
Naquele ataque, morreu a tiros David Byrne, associado aos Kinahan, e outras duas pessoas foram feridas. A disputa entre os Hutch e os Kinahan deixou, até hoje, pelo menos 18 mortos.
Tallant destaca que a "Operação Shovel", uma tentativa anterior de desmantelar a organização em 2010, fracassou devido à lentidão do sistema judiciário e à sólida defesa legal do grupo.
Mas, após o tiroteio no Hotel Regency em 2016, a cooperação policial europeia mudou significativamente, levando a Holanda e a França a compartilhar inteligência de forma mais eficaz.
As autoridades irlandesas conseguiram desarticular grande parte da estrutura local. Cerca de 70 membros foram presos em poucos anos, por crimes como assassinato e lavagem de dinheiro.
Mas a perseguição de Kinahan ficou mais complicada quando ele se mudou para Dubai em 2016, ao lado do seu irmão. O pai de ambos já residia ali.
Em Dubai, Kinahan consolidou sua posição. Ele se integrou aos círculos empresariais e passou a ser uma figura influente no pugilismo internacional.
Paralelamente, as averiguações internacionais se intensificaram.
Investigações jornalísticas e fontes de inteligência mencionadas na imprensa indicam que o entorno do cartel Kinahan chegou a controlar parte significativa do tráfico de cocaína da América do Sul para a Europa.
O Departamento do Tesouro dos EUA também descreve o cartel como uma "organização assassina".
Em 2022, Washington ofereceu uma recompensa de US$ 5 milhões (cerca de R$ 25 milhões) por informações sobre cada um dos supostos líderes do cartel Kinahan
Departamento do Tesouro dos EUA
Nicola Tallant explica que o narcotráfico na Europa evoluiu a partir de centros tradicionais. Um deles é Amsterdã, na Holanda, que chegou a ser chamado de "supermercado das drogas", devido à sua posição logística e comportamento permissivo.
O outro é a Costa do Sol, no sul da Espanha, marcada pela corrupção, proximidade com o Marrocos e pela presença de redes criminosas internacionais.
Nos últimos anos, segundo Tallant, Dubai ganhou importância como um novo refúgio para grandes figuras do crime organizado.
Eles foram atraídos pelo estilo de vida local, pela concentração de riqueza e por um ambiente que, segundo ela, permitiu a chegada de capitais vinculados a atividades ilícitas, até que vieram os mandados judiciais internacionais.
"Dubai gira em torno do dinheiro e de estilos de vida hedonistas, uma riqueza difícil de imaginar", explica a jornalista. "E grande parte desta riqueza provém do crime organizado."
"Muitos grupos se sentem bem-vindos naquela cidade, sem dúvida."
Sensibilidade geopolítica devido à guerra no Irã
Aeroporto Internacional de Dubai suspendeu os voos após ataques de retaliação do Irã
Altaf Qadri/AP Photo/picture alliance via DW
O clima de tensão regional devido à guerra no Irã e a sensibilidade em relação às atividades vinculadas ao país, aparentemente, jogaram contra Daniel Kinahan.
Diversas fontes afirmam que as autoridades dos Emirados Árabes Unidos começaram a agir com mais firmeza após a divulgação de vínculos do suposto cartel de Daniel Kinahan com redes associadas ao Irã, especialmente em relação a atividades ilícitas, como o comércio de petróleo contrariando as sanções americanas às exportações do país.
Uma investigação do website de jornalismo investigativo holandês Bellingcat concluiu que pessoas vinculadas ao entorno do cartel participaram de circuitos de transporte e comercialização de petróleo sancionado.
Paralelamente, o jornal britânico The Times mencionou avaliações de segurança, segundo as quais o cartel mantinha "vínculos com a inteligência iraniana, particularmente em relação ao comércio ilícito de petróleo".
O jornal noticiou que isso teria aumentado as pressões diplomáticas sobre os Emirados e contribuído para que as autoridades do país árabe decidissem tomar ações a respeito.
Neste contexto, a sensibilidade geopolítica em torno da guerra no Irã e os ataques realizados pelo país contra as nações do Golfo teriam contribuído para que as autoridades dos EAU reforçassem sua cooperação com a Irlanda e agissem contra as principais figuras do grupo.
Para a jornalista Nicola Tallant, a prisão de Kinahan se enquadra em um contexto mais amplo, que inclui o conflito no Irã e supostos vínculos do cartel com organizações como o Hezbollah.
Tallant destaca relatos de que o grupo teria oferecido transporte e investimentos vinculados ao narcotráfico, para financiar atividades dessas organizações. Ela descreve o caso como um pano de fundo geopolítico que acompanhou a investigação.
Este episódio deixa claro como os conflitos internacionais podem intensificar a pressão sobre as redes criminosas.
Para o governo irlandês, a prisão de Daniel Kinahan representa um avanço significativo na luta contra o crime organizado e um exemplo da importância cada vez maior da colaboração internacional em assuntos de segurança.
Com colaboração do jornalista Darragh MacIntyre.
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‘Copacabana coroou Shakira como a rainha do pop latino’: o que a imprensa internacional disse sobre show no RJ

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Shakira reúne 2 milhões em Copacabana, diz prefeitura do Rio
O megashow da cantora colombiana Shakira na praia de Copacabana ganhou destaque na imprensa internacional.
No Reino Unido, a BBC disse que a artista cantou "seus maiores hits para uma multidão enorme".
O texto destaca que o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavaliere (PSD), calculou que o evento teve a presença de 2 milhões de pessoas.
"No entanto, uma análise do BBC Verify [o serviço de checagem de fatos da BBC] do show da Lady Gaga em Copacabana em 2025 concluiu que esses números estão provavelmente inflados."
A BBC ainda lembrou que o show foi financiado pela prefeitura, "num esforço para revitalizar a economia local, com a expectativa de que o evento gere R$ 800 milhões para o Brasil".
A agência Associated Press (AP) destacou que Shakira "encantou a multidão".
Vários veículos destacaram a relação antiga da cantora colombiana com o Brasil
Getty Images/BBC
A reportagem da AP informou que a cantora subiu aos palcos às 11h da noite, uma hora depois do previsto, enquanto os fãs "gritavam e aplaudiam em grande excitação e drones voavam acima das cabeças deles para formar a frase 'Eu amo você, Brasil', em português".
A AP também noticiou que a artista falou com carinho da primeira vez que esteve no Brasil, três décadas atrás.
"Eu cheguei aqui quando tinha 18 anos, sonhando em cantar para vocês. Olhe agora para isso. A vida é mágica", disse Shakira.
A alemã Deutsche Welle (DW) lembrou que "muitos dos presentes no show viajaram por horas, em alguns casos atravessaram fronteiras internacionais, para ver a Shakira no palco em frente ao icônico [hotel] Copacabana Palace".
"Alguns fãs até dormiram na praia no dia anterior, para garantir um lugar próximo ao palco", escreveu a DW.
O veículo alemão ainda destacou que, no sábado de manhã, horas antes do show, "a praia estava cheia de pessoas e vendedores ambulantes, que ofereciam milho verde, petiscos, água engarrafada e até o mais tradicional coquetel brasileiro, a caipirinha".
O jornal britânico The Independent destacou em sua manchete que "Shakira transformou a praia numa pista de dança".
"A performance monumental ecoa espetáculos gratuitos semelhantes realizados por Madonna no início de 2024 e por Lady Gaga no ano passado, que também atraíram multidões imensas para a extensa faixa de areia", diz a reportagem.
No The Independent, o etnomusicólogo Felipe Maia, que cursa doutorado em música popular e tecnologias digitais na Universidade Paris Nanterre, na França, destacou que, "quando Shakira se apresentou pela primeira vez no Brasil, na década de 1990, ela estabeleceu uma conexão incrível com o público brasileiro".
Segundo o especialista, o show em Copacabana "coroa o relacionamento que Shakira tem com o Brasil há muito tempo".
Já a Radio France Internationale (RFI) afirmou que a praia de Copacabana "coroou Shakira como a rainha do pop latino".
Para a imprensa internacional, show corrou Shakira como 'rainha do pop latino'
Getty Images/BBC
Repercussão na terra natal de Shakira e em toda a América Latina
Os veículos colombianos também dedicaram manchetes e reportagens ao show da cantora no Rio de Janeiro.
O El Tiempo disse que "a noite de sábado, 2 de maio, marcou um dos momentos mais esperados do ano para a música latina".
Ainda segundo o jornal, o espetáculo "combinou música, convidados locais e momentos íntimos de empoderamento feminino".
O site Infobae destacou que o show gratuito "não apenas marcou um momento histórico na carreira da artista natural de Barranquilla, como também a consolidou como a primeira artista latina a ser a atração principal de um espetáculo desta magnitude num local icônico, superando os números recentes de artistas internacionais como Madonna e aproximando-se do recorde de Lady Gaga".
O El País escreveu que o "o Rio de Janeiro se rendeu à cantora colombiana, que convidou Anitta, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Ivete Sangalo para subir ao palco".
"Falando constantemente com a plateia num português impecável, Shakira exalava carisma e dedicou o show às mulheres latinas, em especial às 20 milhões de mães solteiras no Brasil que lutam para sustentar suas famílias", destacou o El País.
A reportagem ainda lembrou que, "enquanto Bad Bunny ainda estava engatinhando, Shakira já estava em turnê pelo interior do Brasil para promover seu álbum Pies Descalzos [em 1995]".

Copa do Mundo 2026: participação do Irã reacende tensões no esporte e na diplomacia global

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Réplicas do troféu da Copa do Mundo são exibidas em loja de Teerã, capital do Irã, no dia 23 de abril de 2026
Majid Asgaripour/Wana/Reuters
A cerca de 40 dias do início da Copa do Mundo de futebol, a participação do Irã no torneio voltou a expor tensões diplomáticas no cenário internacional. Nesta semana, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmaram que a seleção iraniana estará presente na competição, apesar das controvérsias geopolíticas que envolvem o país.
Durante um congresso da Fifa realizado em Vancouver, no Canadá, Gianni Infantino foi direto ao confirmar a presença da seleção iraniana no Mundial: “Quero confirmar que o Irã participará da Copa do Mundo”, declarou o presidente da Fifa. “E, é claro”, acrescentou, “o Irã jogará nos Estados Unidos”.
Pouco depois, questionado por jornalistas no Salão Oval da Casa Branca, o presidente norte-americano, Donald Trump, respondeu em tom irônico, citando diretamente o dirigente da Fifa: “Se o Gianni disse isso, então estou de acordo”.
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Para analisar o contexto político por trás desses anúncios, a reportagem da RFI ouviu Raphaël Le Magoariec, doutor em Geopolítica pela Universidade de Tours, na França, e especialista em Oriente Médio.
Segundo ele, Donald Trump foi colocado “diante de um fato consumado” e se mostra incomodado com a postura da Fifa, que tenta se afastar das disputas geopolíticas, especialmente em um momento de forte tensão na região.
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, discursa durante congresso da Fifa, no Canadá, em 30 de abril de 2026.
Jennifer Gauthier/ Reuters
“O presidente americano foi colocado diante de um fato consumado e, sobretudo, ele está muito incomodado com o discurso da Fifa, que deseja, como vimos na última quinta-feira (30), sair da geopolítica, especialmente desta geopolítica regional do Oriente Médio, que está atualmente pegando fogo”.
Interesses da Fifa acima dos conflitos internacionais
Le Magoariec lembra que Gianni Infantino tentou, durante a assembleia da Fifa, aproximar os presidentes das federações israelense e palestina, em uma tentativa de mediação simbólica. “Vemos claramente que o presidente da Fifa, que atribuiu o primeiro Prêmio da Paz da Fifa a Trump em dezembro, está incomodado com os desdobramentos e com toda a política de Donald Trump no Oriente Médio atualmente”.
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Para o especialista, a iniciativa não teve sucesso, mas revela ambições políticas do dirigente máximo do futebol mundial. “Não funcionou, mas vemos muito bem que ele está tentando; podemos até nos perguntar se ele não tem vontade de obter ele próprio o Prêmio Nobel da Paz”, sugere.
Le Magoariec destaca ainda que, para Infantino, os interesses financeiros da instituição têm prioridade sobre os conflitos internacionais. “Para ele, o que conta é o lucro e enriquecer cada vez mais a Fifa. Portanto, todas as rivalidades geopolíticas devem silenciar para que o lucro prevaleça. Essa é a realidade dele”, opina.
Futebol e poder político no Irã
De acordo com o especialista, Gianni Infantino insiste em assumir um papel político no cenário internacional. Nesse contexto, o futebol iraniano não pode ser dissociado do poder político, nem dentro do Irã nem em outros países do Oriente Médio e do Golfo Pérsico.
Raphaël Le Magoariec lembra que a seleção representa oficialmente a República Islâmica do Irã e que a estrutura esportiva está diretamente ligada ao regime, já que “a federação iraniana é dirigida por Mehdi Taj, um ex-membro da Guarda Revolucionária”, detalha o especialista.
Segundo ele, o esporte é utilizado como instrumento simbólico de controle social.
“É preciso compreender que o futebol, a luta ou o voleibol são para o Irã elementos simbólicos de controle social.” Esse vínculo entre esporte e política não é exclusivo do Irã, afirma Le Magoariec. “Mesmo em outros países da região, nos países do Golfo Pérsico, não está dissociado da política e faz parte do simbolismo do poder, da encenação da potência e do controle social.”
Le Magoariec cita ainda declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que demonstrou preocupação com a composição da delegação iraniana que viajará aos Estados Unidos. “Foi por isso que Marco Rubio insistiu que o problema não eram os jogadores, mas sim a delegação. É preciso ver quem fará parte da delegação que irá viajar. É isso que causa preocupação”.
Onde o Irã vai jogar?
Apesar da confirmação da presença do Irã no Mundial, permanece a dúvida sobre os locais dos jogos da seleção. O Irã está no Grupo G, ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia, com partidas previstas para Los Angeles e Seattle.
Para Raphaël Le Magoariec, uma alternativa seria transferir os jogos para outro país-sede da Copa, como México ou Canadá. “Essa é realmente a solução: que sejam deslocados para outro país. Sabendo que o Irã deveria jogar especialmente em Los Angeles, onde vive a maior comunidade iraniana nos Estados Unidos.”
O especialista ressalta, no entanto, que a seleção iraniana não conta com apoio unânime da diáspora. Segundo ele, “uma parte da diáspora é contra esta seleção”.
Precedentes e riscos de contestação Le Magoariec lembra que a Copa do Mundo de 2022, no Catar, ocorreu após a morte da jovem Mahsa Amini, detida pela polícia da moralidade iraniana por supostamente não usar o hijab de forma adequada. Na ocasião, muitos torcedores iranianos vaiaram a própria seleção, vista como representante do regime.
Para o especialista, a Fifa não demonstra a mesma preocupação neste novo Mundial.
“A Fifa tentou organizar os jogos em locais onde houvesse muitos torcedores, mas existe essa questão da contestação, pois grande parte da diáspora vê a seleção hoje como a seleção da Guarda Revolucionária”.
Casos recentes, como a desistência da delegação iraniana de participar do congresso da Fifa no Canadá, alegando problemas migratórios, reforçam como a Copa do Mundo que se aproxima segue profundamente marcada pela geopolítica.

Quais as chances de um novo desastre nuclear, como o de Chernobyl?

Quais as chances de um novo desastre nuclear, como o de Chernobyl?
40 anos do desastre de Chernobyl
Muito perto das frentes de combate entre Rússia e Ucrânia, a usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, tem vivido dias de tensão. Ao menos duas vezes neste mês de abril, as instalações ficaram completamente sem energia.
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"Nesta manhã, a central nuclear de Zaporizhzhia ficou completamente sem energia externa pela décima terceira vez desde o início do conflito armado, após a última linha de transmissão ter sido desconectada", disse a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em um comunicado no dia 14.
"Os geradores a diesel de emergência da central foram imediatamente ativados para fornecer a energia necessária para o funcionamento essencial das funções de segurança."
Ao mesmo tempo, instalações nucleares no Irã estão no centro das tensões citadas por EUA e Israel para iniciar uma guerra contra Teerã – um conflito que permanece sem solução.
Ambas as situações extremas levantam a questão: existe a chance de sermos testemunhas de um desastre nuclear de grandes proporções?
Quatro décadas após o desastre de Chernobyl, o maior da história, o temor de uma nova catástrofe nuclear volta a ganhar força diante de duas guerras em curso.
Esta foto de arquivo de 26 de abril de 1986 mostra uma vista aérea da usina nuclear ucraniana de Chernobyl, com danos causados ​​por uma explosão e incêndio no reator quatro, que enviou grandes quantidades de material radioativo para a atmosfera
AP Photo/ Volodymyr Repik
Vale notar, no entanto, que as circunstâncias do desastre de 1986 são bastante diferentes dos riscos que a AIEA enxerga nas instalações nucleares em 2026.
Logo de início, o incidente em Chernobyl ocorreu em tempos de paz, fruto de falhas de projeto, de pressões indevidas e decisões equivocadas dos coordenadores, além de erros dos operadores.
"Não é correto dizer que qualquer reator pode explodir como Chernobyl", diz Renato Cotta, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
"Essa combinação de fatores não está presente nos reatores modernos, o que reduz drasticamente a probabilidade de um evento semelhante hoje, embora não elimine o risco de acidentes graves em cenários extremos, como guerras", ele explica.
Para entender o que ocorreu em Chernobyl há 40 anos e por que a situação dificilmente deve ser repetir, é preciso entender a diferença entre os projetos das usinas nucleares.
Os quatro reatores instalados na Usina Nuclear de Chernobyl V. I. Lênin, na antiga União Soviética, são do modelo RBMK. Já os seis reatores de Zaporizhzhia pertencem a uma outra família, a VVER.
Por coincidência, os reatores instalados no Irã também são do modelo russo VVER.
Ambos foram construídos com o mesmo objetivo, de permitir a fissão nuclear controlada de urânio, capturar a energia térmica produzida e transformá-la em energia elétrica. Para isso, porém, elas usam uma série de mecanismos distintos – cada um com suas vantagens e desvantagens.
Soldado russo vigia acesso à central nuclear de Zaporizhzhia, na Ucrânia, em 2023
Alexander Ermochenko/ Reuters
Reatores 'irmãos'
Os desenhos dos reatores nucleares de Chernobyl (RBMK) e os de Zaporizhzhia (VVER) são radicalmente diferentes, mas têm origens comuns. Ambos nasceram entre os anos 1960 e 1970, das pranchetas do prestigiado Instituto Kurchatov, o centro de pesquisas nucleares soviético, em Moscou.
O VVER é um reator de água pressurizada. Nestes modelos, a água é utilizada tanto para a refrigeração do sistema quanto para a moderação das reações nucleares (o controle da intensidade e da velocidade em que elas acontecem).
Isso faz com que o VVER possua um coeficiente de vazio negativo. O coeficiente de vazio é um parâmetro importantíssimo na engenharia nuclear: ele é um número usado para estimar o quanto a reatividade muda dentro do reator conforme se formam “espaços vazios” dentro dele – geralmente na forma de bolhas de vapor.
Já o RBMK é um reator que utiliza água para refrigeração e grafite para moderar as reações nucleares. A moderação por grafite e outros elementos do projeto fazem com que esses reatores, por sua vez, tenham um coeficiente de vazio não só positivo, mas muito alto.
Em geral, coeficientes de vazio negativos tornam o reator mais estável e previsível, embora esse esteja longe de ser o único fator que determina a segurança de uma usina nuclear.
"Zaporizhzhia utiliza seis reatores VVER-1000, moderados e refrigerados por água pressurizada. Esse tipo de reator apresenta coeficiente de reatividade negativo, ou seja, tende a se autoestabilizar. Além disso, conta com sistemas de resfriamento de emergência e uma estrutura de contenção em concreto armado projetada para resistir a eventos externos e limitar a liberação de material radioativo.", explica Cotta.
“Já em Chernobyl se utilizava um reator RBMK-1000, moderado a grafite e refrigerado a água. Esse projeto apresentava características críticas, como coeficiente de reatividade positivo, que aumenta a reatividade com a formação de vapor. Isso podia levar a instabilidades, especialmente em baixa potência. Além disso, o reator não possuía uma estrutura de contenção robusta.”
Opção pelo RBMK
De posse desses dois projetos, a União Soviética optou por priorizar a operação dos reatores RBMK, por uma série de fatores:
As usinas RBMK eram mais baratas de construir e operar.
Elas permitiam o uso de urânio enriquecido a 1,8%, muito mais barato do que o urânio enriquecido a 4% usado pelos reatores VVER.
O desenho do RBMK permite o reabastecimento em operação e, consequentemente, a fácil remoção de plutônio.
O plutônio-239 é um subproduto das usinas nucleares que utilizam urânio como combustível. Diferentemente dos VVER, o RBMK permite remover combustível contendo plutônio-239 sem parada do reator. Dessa forma, as usinas teriam dupla função, a de gerar energia e também de fornecer material para o programa armamentista soviético.
Como os reatores VVER utilizam água sob alta pressão, as usinas são construídas com paredes reforçadas. Já as usinas RBMK prescindem da alta pressurização, e o tamanho delas tornava o custo das paredes externas reforçadas proibitivo. A União Soviética optou por erguê-las sem o reforço – o que, em Chernobyl, provou ser um grave erro.
Teste de segurança e 'envenenamento do reator'
O projeto dos RBMK colocou uma dúvida nos engenheiros soviéticos: em caso de perda total de energia externa, os geradores a diesel seriam suficientes para manter a água circulando no reator e impedir um superaquecimento e fusão do núcleo?
A fusão do núcleo é uma das piores situações pela qual um reator nuclear pode passar.
Caso ele seja desligado de repente, o calor residual pode derreter as pastilhas de combustível, causando danos internos e, possivelmente, explosões – como de fato ocorreu em Fukushima, em 2011. O material derretido acumulado no reator é chamado de “corium” e é altamente radioativo.
Pensando numa situação do tipo, foi planejado um teste para saber se as turbinas do reator forneceriam energia suficiente para manter a circulação de água enquanto os geradores a diesel ligavam. Esses testes foram realizados em 1982, 1984 e 1985 sem resultados convincentes.
Por isso, o reator 4 de Chernobyl foi escolhido para um novo teste de segurança em 25 de abril de 1986. No entanto, a central de energia pediu um adiamento, para suprir as demandas energéticas de Kiev.
O teste recaiu sobre o turno da noite dos funcionários da usina, que foram avisados do procedimento de última hora.
Trabalhadores da usina nuclear de Chernobyl, fotografados em 1983
Sovfoto/Universal Images Group/Shutterstock
Esse foi o início de uma sequência de erros fatais na condução do teste. Sem preparo suficiente para o teste, pouco após a meia-noite do dia 26, a equipe iniciou a diminuição da potência gradual do reator 4.
Para surpresa dos funcionários, no entanto, a potência caiu drasticamente, abaixo do previsto para a realização do teste. As investigações determinaram que isso ocorreu por um fenômeno chamado “envenenamento de reator”: a velocidade menor provocou o acúmulo de um elemento que diminui a reatividade, deflagrando um círculo vicioso.
Para aumentar a reatividade, os controladores retiraram a maior parte do grafite – o moderador – de dentro do reator. O grafite estava colocado na ponta das barras de controle que desciam no reator se fosse necessária mais moderação, e subiam em caso contrário.
A retirada quase total das barras deixou o reator numa situação extremamente instável e mais sensível às bolhas de vapor.
O botão AZ-5
O teste teve início, e o vapor começou a se acumular dentro do reator. Exatamente à 1h23min40s da madrugada, um dos operadores da sala de controle decidiu interromper a operação apertando o botão AZ-5, que se tornou famoso após a tragédia.
A função do AZ-5 era iniciar um procedimento de interrupção de emergência do reator. Quando o botão é pressionado, ele insere todas as barras de controle no reator simultaneamente.
Aqui entra uma falha de projeto grave dos reatores RBMK: o grafite, moderador da reação, ficava na ponta das barras. Quando totalmente recolhidas, um espaço preenchido com água separava as barras do reator. A água é um absorvedor de nêutrons mais efetivo que o grafite – quanto menos nêutrons disponíveis, menor é a taxa de reatividade.
Como muitas barras estavam recolhidas, várias pontas de grafite entraram no reator ao mesmo tempo, deslocando a água. Portanto, antes de desacelerar a reação nuclear, a inserção das barras acelerou a reatividade. O que se seguiu foi uma explosão.
Luzes azuis em Pripyat
Engenheiros soviéticos já sabiam desse comportamento atípico dos reatores RBMK desde 1983, quando um pico de energia foi registrado em condições semelhantes em outra usina, a de Ignalina, com o mesmo modelo de reator.
“Há um equívoco comum de se achar que Chernobyl foi apenas erro humano. Na realidade, foi uma combinação de falhas de projeto — como coeficiente de reatividade positivo e barras de controle com ponta de grafite — e decisões operacionais de alto risco, incluindo um teste mal planejado e operação em regime instável”, resume o professor Renato Cotta.
“Outro ponto importante: não foi uma explosão nuclear como uma bomba, mas sim uma explosão de vapor, seguida possivelmente por uma explosão de hidrogênio, e depois um incêndio prolongado do grafite.”
A primeira explosão foi causada pela rápida vaporização da água que estava no reator. Quanto à segunda explosão, ocorrida de dois a três segundos depois, não há consenso entre os cientistas, mas muitos teorizam, como aponta Cotta, que ela foi resultado da combustão de hidrogênio.
Fato é que o teto da usina, que carecia de proteção extra, voou pelos ares. Testemunhas ao redor da usina e na cidade Pripyat, construída para abrigar os funcionários de Chernobyl, dizem ter visto uma luz azulada no céu, enquanto, sem que eles soubessem, um incêndio no que sobrou do reator lançava radiação continuamente.
Imagem aérea do reator 4 da Usina Nuclear de Chernobyl, em 1986, meses após o acidente
USFCRFC/Agência Internacional de Energia Atômica
O grafite, que antes servia como moderador, passou a servir de combustível para uma fornalha que sugava ar para dentro da usina e jogava uma nuvem de compostos radioativos para fora.
Não fosse o incêndio, que demorou dias para ser extinto, ao custo da vida de dezenas de bombeiros, a radiação teria se concentrado perto do local do acidente, e não se espalhado por boa parte do continente europeu.
Foi essa nuvem que “delatou” a tragédia para o mundo, mantida a princípio em segredo pelas autoridades soviéticas.
O número de vítimas é incerto. Na época, Moscou admitiu duas mortes em decorrência da explosão, 28 por síndrome de radiação aguda e outros 15 casos de câncer terminal de tireoide. A ONU estima em até 4.000 o número de mortes precoces causadas pelo desastre.
A zona de exclusão do desastre
As autoridades esperaram até o dia 27 de abril para evacuar os 48 mil habitantes da localidade de Pripyat, situada a apenas 3 km da usina. Nenhum morador foi informado de que jamais retornaria. Até hoje, a cidade faz parte da zona de exclusão do desastre
Depois que as autoridades reconheceram o acidente, 116 mil pessoas precisaram deixar seus lares situados na zona de exclusão, para a qual até hoje em dia seguem sem poder voltar. Nos anos seguintes, outras 230 mil pessoas tiveram o mesmo destino.
No entanto, cerca de 5 milhões de ucranianos, russos e bielorrussos vivem em zonas onde a quantidade de radiação segue alta.
No total, 600 mil pessoas, principalmente militares, policiais, bombeiros e funcionários, trabalharam como "liquidadores" para conter o incêndio nuclear e criar uma barreira de concreto para isolar o reator – o famoso “Sarcófago”, completado em dezembro de 1986. Atualmente, uma estrutura maior foi colocada sobre o reator 4.
Zaporizhzhia e Fukushima
A usina nuclear de Zaporizhzhia entrou em operação em 1985. Como já foi dito, ela possui reatores VVER, sem as mesmas falhas do RBMK que amplificaram a tragédia de Chernobyl.
“Em Zaporizhzhia, um acidente grave seria mais semelhante ao acidente de Fukushima. O combustível pode fundir, mas o edifício de contenção tende a limitar significativamente a liberação de material radioativo”, afirma o professor Renato Cotta.
A AIEA classifica o acidente de Fukushima como de grau 7, juntamente com o de Chernobyl. O desastre ocorreu em 2011, quando um terremoto seguido de um tsunami danificou o sistema elétrico.
Como o tsunami danificou os geradores a diesel da usina, não havia energia para bombear água para o reator, o que fez o calor residual do reator se acumular até o núcleo se fundir e causar a explosão do hidrogênio. O incidente foi grave, mas mais contido.
Onde fica a usina de Zaporizhzhia
Editoria de Arte/g1
Guerra do Irã
Assim como em Zaporizhzhia, a AIEA teme que os conflitos no Irã possam colocar em risco as instalações nucleares do país.
O país também possui dois reatores VVER instalados e em operação, Bushehr I e II.
“Um eventual bombardeio poderia causar liberação localizada de material radioativo, além de contaminação química e radiológica regional”, explica Cotta. “No entanto, não é provável reproduzir um cenário como Chernobyl, também pelas diferenças entre os reatores.”
O professor destaca que, em um contexto de guerra, as redundâncias que contribuem para a segurança da operação das usinas nucleares são reduzidas: “A AIEA tem enfatizado exatamente esse ponto: o risco sistêmico associado à instabilidade operacional prolongada em condições de conflito”.