Ataques de Trump aos líderes da Europa agravam as relações dos países com os Estados Unidos

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 28 de abril de 2026
Chris Jackson/Pool via REUTERS
As últimas semanas não foram tranquilizadoras para quem acreditava que a Europa conseguiria lidar com sua relação delicada com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Nesta semana, Trump atacou o chanceler alemão Friedrich Merz por suas críticas à guerra no Irã, chamando-o de “totalmente ineficaz”, e ameaçou reduzir os 36,4 mil soldados americanos baseados na Alemanha.
Ele também mirou o primeiro-ministro britânico Keir Starmer em termos fortemente pessoais, dizendo que ele “não é Winston Churchill” e ameaçando impor uma “grande tarifa” sobre importações do Reino Unido.
Mais preocupante para a Europa, o Departamento de Defesa dos EUA cogitou punir aliados da OTAN que, na sua avaliação, não estão apoiando as operações americanas na guerra com o Irã — incluindo suspender a Espanha como membro e rever o reconhecimento dos EUA das Ilhas Falkland como território britânico.
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“É inquietante, para dizer o mínimo”, afirmou um diplomata europeu. “Estamos preparados para qualquer coisa, a qualquer momento.”
As mais recentes investidas dos EUA, motivadas por divergências sobre a guerra no Irã, parecem ter levado as relações entre EUA e Europa de volta ao início do segundo governo Trump e levantam novas dúvidas sobre a melhor forma de lidar com um aliado imprevisível.
Um segundo diplomata europeu afirmou que a ex-chanceler alemã Angela Merkel, que teve uma relação turbulenta com Trump durante seu primeiro mandato, serviu de modelo para a abordagem correta.
“Todos nós já aprendemos um pouco sobre como lidar com Trump. Não se deve reagir imediatamente, é preciso deixar a tempestade passar, mantendo-se firme em suas posições”, disse.
Mesmo aqueles que tentaram usar a bajulação enfrentaram a ira de Trump, acrescentou o diplomata. “Todos que tentaram isso receberam sua rodada de insultos, como os outros. Então todos percebem agora que bajulação também não funciona.”
A Casa Branca não comentou de imediato.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante conversa no Salão Oval da Casa Branca, em 3 de março de 2026.
Jonathan Ernst/ Reuters
De volta à mira
No ano passado, tarifas impostas pelos EUA, a tentativa de Trump de adquirir a Groenlândia e a redução da ajuda americana à Ucrânia já haviam abalado profundamente as relações transatlânticas.
Alguns líderes, incluindo Starmer, Merz e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, trabalharam para estabilizar os laços por meio de visitas frequentes, acordos comerciais e mudanças de política — algumas impopulares internamente —, apenas para voltarem à linha de fogo após o início da guerra no Irã, em fevereiro.
Até o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, conhecido na Europa como alguém que sabe lidar com Trump, foi repreendido pelo presidente durante uma reunião na Casa Branca neste mês. Trump também criticou Meloni — antes sua líder europeia favorita — após ela condenar a guerra no Irã e repreendê-lo por um ataque verbal que classificou como “inaceitável” contra o papa Leão.
Embora muitos integrantes do governo americano vejam a Europa com ceticismo, nem todos no Partido Republicano apoiam a abordagem de Trump.
“Os ataques contínuos aos aliados da OTAN são contraproducentes, esses comentários prejudicam os americanos”, escreveu o deputado republicano Don Bacon na rede X, na quinta-feira, após a ameaça de Trump de reduzir o número de tropas na Alemanha.
“Os dois grandes campos aéreos na Alemanha nos dão excelente acesso a três continentes. Estamos atirando no próprio pé.”
Algumas publicações de Trump nas redes sociais nesta semana pegaram autoridades europeias de surpresa.
Menos de duas horas antes da postagem sobre o nível de tropas americanas na Alemanha, o principal general de Berlim, Carsten Breuer, disse a jornalistas que recebeu sinal verde para a nova estratégia militar alemã ao se reunir com o subsecretário de Defesa Elbridge Colby no Pentágono mais cedo naquele dia. Ele não indicou que qualquer redução de tropas tivesse sido discutida.
A embaixada alemã não comentou.
Autoridades militares alemãs demonstraram relativa tranquilidade diante da situação, e a cooperação militar permaneceu intacta, disse um ex-alto funcionário de Defesa dos EUA. “Eles dizem: ‘Já vimos esse filme antes. Vai ter muito discurso inflamado e, no fim das contas, nada vai mudar.’”
Oposição mais firme aos EUA
Jeffrey Rathke, ex-diplomata americano e chefe do Instituto Americano-Alemão da Universidade Johns Hopkins, afirmou que os aliados europeus estão se tornando mais firmes em sua oposição às políticas de Trump, em parte devido à pressão política interna.
“Merz tem sido cada vez mais direto em suas críticas à decisão dos EUA de entrar em guerra contra o Irã”, disse. “Está claro que algo mudou para alguém que, apenas dois meses atrás, fazia questão de dizer: ‘Não é o nosso momento de dar lições aos Estados Unidos.’”
“A guerra dos EUA não é algo que o público alemão possa observar de forma distante. É algo que os afeta”, acrescentou, citando a alta nos custos de energia relacionada ao conflito.
Diplomatas europeus afirmam que continuam comprometidos com as relações transatlânticas, mesmo com o deslocamento das “placas tectônicas” entre Europa e Estados Unidos, mas reconhecem a necessidade de mudanças.
“Para nós, a principal lição é que não podemos mais depender do status quo do pós-Segunda Guerra Mundial e que precisamos ser não apenas uma potência de influência, mas também um espaço respaldado por poder”, disse um diplomata ocidental, destacando que os europeus estão agindo rapidamente para ampliar suas capacidades militares.

Trump pode continuar guerra contra Irã sem o aval do Congresso dos EUA

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Trump rejeita proposta do Irã e mantém bloqueio no Estreito de Ormuz
Termina nesta sexta-feira (1º) o prazo previsto pela lei americana que obriga o presidente dos Estados Unidos a interromper a guerra no Oriente Médio ou pedir autorização ao Congresso para continuar o conflito.
Mas o governo Trump deixou claro que ignorará essa obrigação e avaliará a possibilidade de realizar novos ataques contra o Irã para forçar Teerã a negociar um acordo. O regime iraniano, que teve de ativar na noite de quinta-feira (30) o sistema de defesa antiaérea do país, promete uma reação “dolorosa e prolongada”.
Segundo a Constituição americana, apenas o Congresso tem o poder de declarar uma guerra. No entanto, uma lei aprovada em 1973 permite que o presidente inicie uma intervenção militar limitada para responder a uma situação de emergência, desde que, caso envolva tropas americanas por mais de 60 dias, obtenha autorização do Poder Legislativo.
Esta sexta-feira representaria, portanto, o prazo final para essa autorização de continuar o conflito iniciado em 28 de fevereiro. Mas o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, argumentou na quinta-feira que, em razão do cessar-fogo, “o relógio dos 60 dias está suspenso”.
“As hostilidades iniciadas no sábado, 28 de fevereiro, terminaram”, acrescentou à AFP um alto funcionário do governo americano. “Não houve troca de disparos entre as forças armadas dos Estados Unidos e o Irã desde a terça-feira, 7 de abril”, quando entrou em vigor o cessar-fogo.
'Derrota vergonhosa'
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante conversa com jornalistas na Casa Branca em 30 de abril de 2026
REUTERS/Jonathan Ernst
O líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, afirmou na quinta-feira que os Estados Unidos sofreram uma “derrota vergonhosa” diante do Irã. Já o presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, denunciou o bloqueio americano como uma “extensão das operações militares”.
Em Teerã, sistemas de defesa antiaérea foram ativados na noite de quinta-feira contra drones e aeronaves cuja procedência não foi divulgada. “O barulho da defesa antiaérea cessou após cerca de 20 minutos de atividade e de resposta contra pequenas aeronaves”, informaram as agências Tasnim e Fars, acrescentando que Teerã se encontrava novamente em uma “situação normal”.
A guerra deixou milhares de mortos, principalmente no Irã e no Líbano. Apesar da trégua e de primeiras conversas ocorridas em 11 de abril, em Islamabad, as negociações de paz parecem estar num impasse.
Duplo bloqueio do Estreito de Ormuz
Enquanto as discussões patinam, os efeitos do bloqueio de Ormuz se fazem sentir cada vez mais na economia mundial, entre escassez gradual de vários produtos, pressões inflacionárias e revisões para baixo do crescimento.
Washington impôs um bloqueio aos portos iranianos em retaliação ao bloqueio, por Teerã, do estreito. Antes do conflito, um quinto dos hidrocarbonetos consumidos no mundo transitava pela passagem estratégica. O duplo bloqueio fez os preços do petróleo dispararem.
Um alto funcionário americano mencionou uma possível prorrogação dessa medida “por meses”.
Diante da perspectiva de um prolongamento do conflito, o barril de Brent, referência mundial do petróleo bruto, ultrapassou brevemente, na quinta-feira, os US$ 126, atingindo o maior nível desde o início de 2022, durante a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Na manhã desta sexta-feira, o produto registrava alta de 0,59%, a US$ 111,05.
“O mundo enfrenta a mais grave crise energética de sua história”, avaliou o diretor da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol.
'À beira do abismo'
O secretário-geral da ONU, António Guterres, também alertou para o “estrangulamento” da economia global devido à paralisação do estreito. “Agora é o momento do diálogo, de soluções que nos afastem da beira do abismo e de medidas capazes de abrir um caminho para a paz”, defendeu em uma mensagem na plataforma X.
Na frente libanesa, novos ataques israelenses no sul do país deixaram pelo menos 17 mortos na quinta-feira.
A embaixada americana em Beirute pediu uma reunião entre o presidente libanês e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, considerando o Líbano “em um ponto de inflexão”. “Seu povo tem a oportunidade histórica de retomar o controle de seu país e forjar seu futuro”, afirmou em publicação no X.
As operações conduzidas por Israel no Líbano, onde combate o movimento pró-iraniano Hezbollah, deixaram mais de 2.500 mortos e mais de um milhão de deslocados desde o início de março, segundo as autoridades.
* Com AFP

Petróleo segue acima de US$ 110 enquanto bolsas globais têm desempenho misto

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O preço do petróleo se mantém em patamar elevado nesta sexta-feira (1º), em meio às incertezas sobre a guerra entre os Estados Unidos e o Irã, junto aos seus efeitos sobre a oferta global da commodity.
Por volta das 6h30 (hirário de Brasília), o barril do Brent — referência internacional — subia 1,48%, sendo negociado a US$ 112,03 por barril, enquanto o petróleo de referência dos Estados Unidos avançavapara US$ 105,19.
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As dúvidas sobre um acordo para consolidar um cessar-fogo de três semanas persistem, após o líder supremo iraniano afirmar que o país manterá suas capacidades nucleares e de mísseis.
O cenário pressiona o governo dos EUA, que avalia alternativas para reabrir o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de petróleo e gás.
Depois da forte alta registrada na véspera, o mercado mostrou sinais de acomodação. Ao longo da quinta-feira, o Brent para entrega em julho chegou a US$ 114,70, recuou para perto de US$ 107 e encerrou o dia em US$ 110,40.
Durante o conflito, o pico foi de US$ 119,50, enquanto, antes da guerra, o barril era negociado em torno de US$ 70. (veja mais no gráfico abaixo)

Feriado esvazia mercados
Com a maioria dos mercados fechados pelo feriado do Dia do Trabalhador, as bolsas globais tiveram movimentação limitada. Em Londres, o índice FTSE 100 caiu 0,6%. Já o Nikkei, no Japão, subiu 0,7%, e o S&P/ASX 200, na Austrália, avançou 0,9%.
Nos EUA — onde os mercados operam normalmente nesta quarta-feira, já que o 1º de maio não é feriado no país —, os contratos futuros subiam após uma sessão de recordes na véspera. O S&P 500 avançou 1% e alcançou novo patamar histórico, enquanto o Dow Jones subiu 1,6% e o Nasdaq renovou seu recorde.
O movimento foi impulsionado por resultados de grandes empresas. A Alphabet subiu 10% após divulgar lucro acima do esperado, enquanto a Meta caiu 8,7% diante da previsão de aumento de gastos com inteligência artificial. A Microsoft também recuou, após elevar suas estimativas de investimentos.
Dados recentes mostram que a economia americana perdeu ritmo no início do ano, enquanto a inflação avançou em março. Ao mesmo tempo, pedidos de seguro-desemprego caíram, indicando menor número de demissões.
*Com informações da Associated Press
Bombas de extração abandonadas e danificadas ao longo do tempo em um campo da estatal de petróleo PDVSA no Lago de Maracaibo, em Cabimas, na Venezuela.
Reuters

Como decisão da Suprema Corte pode reduzir a representação de negros e latinos nos EUA

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Brasil sobe em ranking de liberdade de imprensa e ultrapassa os EUA pela 1ª vez
Uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos pode alterar, na prática, quem consegue se eleger no país. Na quarta-feira (29), o tribunal esvaziou um dos principais instrumentos da Lei dos Direitos de Voto, legislação histórica criada para combater a discriminação racial nas eleições americanas.
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A lei foi sancionada em 1965, no auge do movimento pelos direitos civis e após episódios de violência contra manifestantes negros. O objetivo era impedir que estados adotassem regras que dificultassem o voto de minorias raciais.
Ao longo das décadas, a legislação ampliou a participação política de negros e latinos.
O número de políticos negros eleitos, por exemplo, passou de cerca de 1.500 em 1970 para mais de 10 mil atualmente, segundo especialistas.
A lei garantiu que comunidades minoritárias tivessem voz em decisões sobre saúde, educação e infraestrutura.
Nos Estados Unidos, deputados são eleitos por distritos eleitorais, e não por sistema proporcional como no Brasil. Cada distrito escolhe um representante para a Câmara.
Os mapas que determinam quais cidades e bairros pertencem a um determinado distrito são redesenhados periodicamente em um processo conhecido como "redistritamento". A definição desses limites pode influenciar diretamente o resultado das eleições.
É comum, no entanto, que grupos políticos no poder manipulem os limites dos distritos para favorecer aliados e prejudicar opositores. A prática é conhecida como gerrymandering e costuma ocorrer de duas formas:
concentrar eleitores de um grupo em poucos distritos;
dividir esses eleitores entre vários distritos para reduzir sua força política.
Na prática, isso pode impedir que minorias consigam eleger representantes mesmo quando formam parte significativa da população.
O que mudou
Mulher vota na eleição presidencial dos EUA de 2024 na escola Pittsburgh Manchester
Quinn Glabicki/Reuters
Um trecho da Lei dos Direitos de Voto permitia contestar mapas eleitorais que reduzissem o poder político de minorias. Com base nessa regra, estados foram obrigados a criar distritos nos quais eleitores negros ou latinos tivessem maioria suficiente para eleger candidatos de preferência.
Foi o caso recente da Louisiana, que passou a ter um segundo distrito com maioria negra, ampliando a representação no Congresso. Agora, no entanto, a Suprema Corte mudou esse entendimento.
A maioria conservadora decidiu que o uso do critério racial no desenho dos distritos pode ser inconstitucional e indicou que a lei deve ser aplicada apenas quando for comprovado que houve discriminação intencional. Isso, porém, é muito mais difícil de provar.
Em voto divergente, a juíza Elena Kagan afirmou que a decisão cria uma barreira “quase intransponível” para provar a discriminação eleitoral.
Especialistas avaliam que o julgamento abre espaço para mudanças no mapa político dos Estados Unidos. Isso porque, sem a proteção anterior:
estados podem redesenhar distritos sem garantir representação de minorias;
ações judiciais contra mapas eleitorais tendem a se tornar mais difíceis;
comunidades negras e latinas podem perder cadeiras no Congresso e em assembleias estaduais.
A decisão deve impactar a disputa política nacional. Distritos com mais eleitores negros ou latinos costumam votar no Partido Democrata, que se opõe ao presidente Donald Trump.
Com mais liberdade para redesenhar mapas eleitorais, legisladores estaduais, principalmente em estados controlados por republicanos, podem tentar alterar distritos para obter vantagens em áreas dominadas por minorias.
Organizações de direitos civis afirmam que os efeitos podem alcançar também eleições locais, como conselhos escolares e câmaras municipais.
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Entre os mais ávidos defensores das mensagens de voz, estão os mexicanos
Getty Images via BBC
Em agosto de 2013, o aplicativo de mensagens WhatsApp (que, hoje, é de propriedade da empresa Meta) fez um anúncio ao público.
Eles apresentaram, com relativamente pouco alarde, as mensagens de voz, uma função que permite enviar um fragmento de áudio para familiares e amigos.
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"Sabemos que nada substitui o som da voz de um amigo ou familiar", declarou entusiasmadamente a empresa, naquele comunicado.
Treze anos se passaram e receber um áudio de 10 minutos de um amigo, contando sobre uma complexa disputa familiar ou um drama no trabalho, é uma experiência que algumas pessoas adoram e outras detestam.
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Em lugares como a Índia, o México, Hong Kong e os Emirados Árabes Unidos, as mensagens de voz quase se igualam em popularidade às mensagens de texto, como a forma preferida de comunicação eletrônica.
Mas países como o Reino Unido não parecem ter absorvido totalmente a febre das mensagens de voz.
O instituto YouGov divulgou em abril uma pesquisa envolvendo mais de 2,3 mil adultos britânicos.
Ela revelou que as mensagens de voz se popularizaram ligeiramente no último ano, mas apenas 15% dos entrevistados se comunicam por áudio com regularidade (ou seja, várias vezes por semana).
Tanto entre homens quanto mulheres, de todas as faixas etárias, incluindo a geração Z (os nascidos entre 1996 e 2012), as mensagens de voz foram o método de comunicação menos popular entre os britânicos entrevistados.
Anteriormente, o YouGov já havia concluído que o Reino Unido é o país mais reticente em relação às mensagens de voz em um grupo de 17 nações, em sua maioria países ricos.
Dentre os entrevistados, os que preferem enviar mensagens de texto para os seus contatos totalizaram 83%, enquanto apenas 4% se declararam partidários das mensagens de voz.
A pesquisa do YouGov não incluiu o Brasil. Mas, em junho de 2024, o CEO (diretor-executivo) da Meta, Mark Zuckerberg, declarou que "os brasileiros enviam mais figurinhas, participam mais de enquetes e enviam quatro vezes mais mensagens de voz no WhatsApp do que qualquer outro país", segundo o portal G1.
Mas por que as mensagens de voz geram tanta controvérsia?
E por que elas tiveram tanto sucesso em alguns países, mas não conseguiram se consolidar no Reino Unido?
Impulso para a felicidade
Em 2011, pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, avaliaram as variações hormonais de um grupo de crianças ao receber ligações telefônicas dos seus pais, em comparação com mensagens de texto.
O estudo revelou que os níveis de cortisol, o hormônio do estresse, diminuíam quando eles ouviam a voz dos pais em uma ligação telefônica. Já a oxitocina, o hormônio relacionado à formação de relações positivas e vínculo afetivo, aumentava.
A pesquisa analisou chamadas telefônicas, não mensagens de voz. Mas sua principal conclusão (sobre a importância de ouvir a voz de um ente querido) pode ser igualmente relevante.
O psicólogo Seth Pollak participou do estudo de 2011. Ele afirma que valeria a pena repeti-lo, concentrando-se especificamente nas mensagens de voz.
"Acredito que seria interessante incluir uma gravação, na qual você ouvirá alguém falando, mas sem necessariamente responder àquilo que está sendo dito", explicou ele.
Seu palpite é que uma mensagem de voz pré-gravada provavelmente "terá menos impacto" emocional que uma ligação telefônica ao vivo, que nos permite responder em tempo real ao que estivermos ouvindo.
Milhões de pessoas usam o WhatsApp em todo o mundo, mas uma das suas ferramentas gera controvérsias globais
Samuel Boivin/NurPhoto via Getty Images
Paralelamente, o psicólogo Martin Graff, da Universidade do Sul do País de Gales, no Reino Unido, pesquisa a comunicação online e afirma que as mensagens de voz podem oferecer formas de comunicação com maior carga emocional.
"Acredito que isso se baseie, possivelmente, no que antes chamávamos de teoria da riqueza dos meios de comunicação", explica ele.
"[Isso] significa que, se você enviar 'conteúdo multimídia enriquecido [ou seja, não apenas texto, mas também voz], você irá transmitir uma emoção, que poderia levar ao que chamamos de redução da incerteza. Com isso, ficaremos mais seguros em relação à pessoa com quem estamos falando."
Por isso, não é de se estranhar que aplicativos de encontros, como Bumble, Happn e Grindr, incorporaram a função de mensagens de voz nos últimos anos.
Mas por que, então, muitos britânicos continuam tão obstinados contra esta função?
O país partidário das mensagens de voz
Para a professora de sociologia Jessica Ringrose, do University College de Londres, talvez o estilo de comunicação dos britânicos seja mais reservado do que outras culturas.
Ela explica que as mensagens de voz são atraentes "se você realmente gostar de falar e tiver esse componente comunicativo e até performático nos seus relacionamentos". Mas isso, de forma geral, não é comum na cultura britânica, que costuma ser considerada relativamente reservada em relação às emoções.
"Vejo os britânicos certamente menos propensos a enviar mensagens de voz e mais breves nas suas interações", afirma a professora. Mas ela reconhece que "é difícil não cair em estereótipos ao comentar este assunto".
Frente à falta de dados científicos atualizados, realizei minha própria pesquisa, pouco científica.
Sou britânica de ascendência indiana, o que me dá uma perspectiva privilegiada sobre dois países com sentimentos radicalmente diferentes em relação às mensagens de voz.
A Índia é um dos países que mais apreciam as mensagens de voz. A pesquisa de 2024 do YouGov revelou que 48% dos indianos consultados prefere receber mensagens de voz ou gosta de recebê-las tanto quanto as de texto, contra apenas 18% dos britânicos.
Por isso, comecei questionando amigos e conhecidos no Reino Unido.
O caso é que eu adoro as mensagens de voz. Mas sei que minha irmã Ramya fica irritada com elas.
"Odeio as mensagens de voz porque são muito desequilibradas", explica ela.
"Para quem envia a mensagem de voz, é muito fácil. É só pressionar o botão e sair falando sem parar. Mas quem a recebe… precisa prestar total atenção."
"Você recebe uma mensagem de voz de seis minutos e não sabe se estão contando que a casa pegou fogo, se o gato morreu ou se estão apenas falando que o dia deles foi bom", exemplifica ela.
Gyasi é um estagiário da geração Z que faz parte da minha equipe. Ele conta que as mensagens de voz, para ele, parecem "um pouco chatas", principalmente porque você precisa de fones de ouvido para escutá-las.
Embora pareça contraditório, já que os jovens britânicos são os que mais usam as mensagens de voz, a mãe de Gyasi — Buzz, de 53 anos — declarou que elas são uma forma prática de colocar em dia uma ligação que estava pendente.
Por outro lado, Daniela, de 30 anos, comentou que "as mensagens de voz me estressam um pouco, pois, depois que você as abre, é obrigado a ouvir até o fim".
O repórter da BBC especializado em temas LGBT e de identidade, Josh Parry, talvez seja o maior defensor das mensagens de voz que conheço. Às vezes, suas mensagens chegam a durar 15 minutos (não é exagero).
"Acredito que elas podem transmitir um contexto muito útil, quando você fala de alguma coisa", explica ele.
"Você pode discutir as coisas de uma forma que, talvez, seja mais difícil de escrever e pode também transmitir nuances. E são muito práticas em relação às mensagens de texto quando levo os cachorros para passear.
Outra amiga, Naomi, é designer e empresária. Ela disse que as mensagens de voz são úteis quando ela está com as mãos ocupadas.
"Adoro mandar mensagens de voz quando estou ocupada", ela conta. "Quando tenho muitas coisas para fazer, se as crianças estiverem por perto e quando estou tentando fazer várias coisas ao mesmo tempo."
"É uma boa forma de ficar um pouco mais conectada", afirma Naomi.
O fator do idioma
Na Índia, país dos meus ancestrais, quase a metade da população prefere as mensagens de voz ou, pelo menos, gosta tanto delas quanto das mensagens de texto.
Isso significa que as mensagens de voz passaram a ser uma parte fundamental da comunicação no país.
A filial indiana do WhatsApp lançou recentemente um anúncio de nove minutos, com apresentação impecável, contando a história de um casal recém-casado fictício em uma zona rural do país, que se apaixonou através das mensagens de voz.
Mas, no outro lado do espectro, criminosos estariam preferindo enviar ameaças por mensagens de voz, não de texto.
Alguns afirmam que tudo isso se deve ao idioma. Em culturas multilíngues, como a Índia, as mensagens de voz facilitam a mistura de idiomas.
As pessoas que falam hinglish (como chamamos a mistura fluente de hindi e inglês) podem se comunicar com mais naturalidade falando do que escrevendo, por exemplo.
A Índia é um dos países em que as pessoas tendem a usar mais as mensagens de voz para se comunicar nas redes sociais
Getty Images via BBC
Shreya é estudante universitária em Pune, no Estado indiano de Maharashtra, oeste da Índia. Ela conta que seu grupo de amigos usa principalmente as mensagens de voz "porque falamos muitos idiomas".
"Assim, costumo alternar entre minha língua materna, o marati, e o inglês", ela conta.
"Testei o teclado marati, mas é muito complicado de usar", segundo ela. Shreya conta que só conhece uma pessoa que usa o teclado marati para escrever: sua avó.
Já Namratha tem 29 anos e mora em Khargar, perto de Mumbai, na costa oeste da Índia.
Ela conta que, como as pessoas falam diversos idiomas no seu país, mas não sabem necessariamente ler e escrever em todos eles, as mensagens de voz facilitam a comunicação.
"Eu posso saber o idioma deles, mas eles não têm conhecimento suficiente do meu para poderem escrever", explica ela. "Talvez eles saibam falar, mas não escrever."
Mas algumas coisas realmente transcendem fronteiras, como a necessidade de fofocar.
Shreya, por exemplo, conta que as mensagens de voz "também transmitem melhor a expressão… por isso, quando se trata de contar fofocas, o que esperamos é uma mensagem de voz".
Existem poucas pesquisas na Índia a este respeito. Mas a professora de sociologia Kathryn Hardy, da Universidade Ashoka de Sonipat, no norte do país, acredita ser "muito plausível" que as mensagens de voz sejam particularmente populares entre as comunidades rurais e em regiões com menor nível de alfabetização.
"Observamos como muitas tecnologias foram implantadas nas comunidades rurais de forma quase instantânea, exatamente porque elas não exigem que se saiba ler, nem escrever", explica ela.
"Este parece ser o uso mais óbvio das mensagens de voz: eliminar o problema não só da alfabetização, mas também da fluência."
Será que o idioma também pode ajudar a explicar a aversão britânica às mensagens de voz? Rory Sutherland, colunista da revista The Spectator, acredita que sim.
"Na verdade, temos um idioma bastante eficiente", explica ele. "Em inglês, não é preciso digitar 16 letras para pedir desculpas, o que torna a comunicação escrita mais atraente."
A diáspora
É preciso também destacar a popularidade das mensagens de voz em países com grandes comunidades residindo no exterior.
A Índia, por exemplo, tem a maior diáspora do mundo. São mais de 35 milhões de indianos e pessoas com origem no país vivendo fora da Índia e cerca de 2,5 milhões que se mudam para o exterior todos os anos.
No México, 53% da população afirma que gosta de receber mensagens de voz. E o país também tem uma grande comunidade no exterior, principalmente nos Estados Unidos.
Talvez as mensagens de voz ofereçam às pessoas que vivem em diferentes fusos horários a possibilidade de se manterem em contato de forma mais assincrônica que as ligações telefônicas, embora mais pessoal que as mensagens de texto.
Hardy apoia esta teoria. Como norte-americana que mora na Índia há quase uma década, as mensagens de voz permitiram que seus filhos mantivessem o contato com os avós nos Estados Unidos.
"Usamos mensagens de voz entre 10 e 20 vezes por semana", comenta ela. "Enviamos muitas."
"Por isso, suspeito que pelo menos uma parte desse uso [na Índia] seja intergeracional ou se deva às longas distâncias e grandes diferenças de horário."
Etiqueta e fofocas
Ainda não sabemos se as mensagens de voz provocam aquele aumento de oxitocina observado no estudo de 2011, sobre as ligações telefônicas. E a conclusão de um eventual estudo a respeito, seja ela qual for, não mudará necessariamente a opinião pública.
Rory Sutherland acredita que exista aqui uma questão de cortesia.
"Talvez isso tenha a ver com o idioma inglês ou com as características britânicas, mas espero que ainda conservemos uma vaga noção do que seja a etiqueta", declarou ele.
"Eu diria que gravar uma mensagem de cinco minutos é falta de cortesia em relação a quem recebe."
De minha parte, não posso deixar de pensar que, como muitos de nós nos sentimos cada vez mais distantes, as pequenas gravações dos nossos amigos ocupam lugar importante e deveríamos considerá-las um tesouro.
Como diz meu amigo Josh, "espero que elas nunca desapareçam. As nossas fofocas seriam muito menos interessantes se não houvesse as mensagens de voz."