Megaprotejos em tempo recorde: como China foi de cenário de pobreza a referência global em infraestrutura

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De Nova York a Xangai: uma viagem nos trilhos da disputa entre EUA e China
A experiência de sair de um aeroporto e chegar ao centro da cidade em poucos minutos ajuda a traduzir o ritmo das transformações urbanas na China. Em Xangai, um trem de levitação magnética — que não toca os trilhos — pode atingir mais de 400 km/h e conecta diferentes pontos da metrópole em questão de minutos.
Mais do que uma inovação tecnológica, o sistema virou símbolo de um modelo de desenvolvimento baseado em três pilares: velocidade, escala e planejamento.
Veja acima o vídeo da série 'Entre Dois Mundos', no Fantástico.
Nas últimas décadas, o país asiático saiu de um cenário de pobreza para se tornar referência global em infraestrutura. Aeroportos, linhas de metrô e estações ferroviárias são construídos em ritmo acelerado e, muitas vezes, replicados em diferentes regiões com padrões semelhantes — como peças de um grande sistema.
Segundo especialistas, a lógica por trás desse avanço está na capacidade de planejar e executar projetos de longo prazo sem interrupções políticas. Com o mesmo grupo no poder há décadas, o país consegue alinhar decisões estratégicas e manter continuidade nas obras, algo mais difícil em democracias com alternância de governo e disputas políticas.
A escala também é um fator determinante. Grandes projetos são pensados para atender milhões de pessoas e replicados em diversas cidades, o que reduz custos por unidade. Na prática, isso significa que obras complexas podem ser concluídas em poucos anos e com orçamento menor do que projetos semelhantes em países ocidentais.
A combinação entre velocidade e escala impacta diretamente o custo final. Especialistas explicam que quanto mais rápido uma obra é concluída, menores são os gastos com atrasos, revisões e mudanças de projeto — um problema comum em grandes empreendimentos ao redor do mundo.
Além disso, o uso intensivo de dados tem ganhado espaço no planejamento urbano chinês. Informações sobre deslocamento, consumo e comportamento da população ajudam autoridades a tomar decisões sobre onde investir e como expandir a infraestrutura, tratando as cidades como sistemas dinâmicos em constante adaptação.
Apesar dos avanços, o modelo também levanta questionamentos. A rapidez na execução muitas vezes vem acompanhada de decisões centralizadas, que podem incluir a realocação de moradores para dar lugar a novos projetos. Em alguns casos, famílias são transferidas para áreas mais distantes, com compensações financeiras ou novos imóveis — um processo que nem sempre ocorre sem resistência.
Especialistas destacam que esse é o principal dilema do modelo chinês: a capacidade de transformar rapidamente o espaço urbano, mas com menor peso para decisões individuais. Em contrapartida, países com processos mais participativos enfrentam maior lentidão, custos elevados e entraves políticos.
China ou EUA: quem vai liderar o futuro? Série estreia mostrando as diferenças entre Xangai e Nova York
China constrói mais rápido e barato que os EUA; veja comparação entre Xangai e Nova York
Trem mais rápido do mundo na China
Reprodução/TV Globo
Hoje, cidades como Xangai se tornaram vitrines desse modelo, reunindo arranha-céus, sistemas de transporte modernos e obras que impressionam pela escala. Ao mesmo tempo, expõem um debate mais amplo sobre o futuro das metrópoles: até que ponto é possível equilibrar eficiência, custo e participação social no desenvolvimento urbano.
A resposta, ainda em construção, ajuda a explicar por que a infraestrutura se tornou peça central na disputa global por influência e desenvolvimento no século 21.
O que explica avanço acelerado da infraestrutura na China
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Tio de menino brasileiro morto no Líbano diz que corpo de irmão e cunhada ainda não foram encontrados

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Itamaraty confirma morte de brasileiros no Líbano
O menino brasileiro de 11 anos, Ali Ghassan Nader, e sua mãe, também brasileira, Manal Jaafar, e o pai, libanês, Ghassan Nader, morreram após ataques israelenses no Líbano. Segundo o tio do menino, o corpo de Ghassan e Manal ainda não foram encontrados.
Em entrevista à TV Globo, Bilal Nader relatou que a família não morava mais na casa bombardeada, mas foram até o local retirar alguns pertences quando um bombardeio atingiu a casa deles.
"Quando pararam de atacar, eles foram na cidade onde está casa deles para dar uma olhada na casa. Olharam tudo, tomaram café da manhã, estavam preparando a mala e as coisas que eles iam levar embora da casa", disse ele.
O filho mais velho do casal também estava na casa, mas ele sobreviveu ao ataque. Conforme o tio, ele se recupera bem.
"Estavam meus dois sobrinhos do lado de fora, meu irmão e minha cunhada dentro e essa hora deu o bombardeio. Meu irmão e minha cunhada ainda não conseguiram achar os corpos deles de tão forte que foi a casa de três andares virou pedaços", disse o cunhado da brasileira.
Ali Ghassan Nader, Ghassan Nader e Manal Jaafar, vítimas de um bombardeio no Líbano.
Reprodução / Redes Sociais
Neste domingo (26), o Exército israelense iniciou novos ataques no sul do Líbano, apesar do cessar‑fogo em vigor com o Hezbollah, grupo extremista libanês apoiado pelo Irã, ter sido prorrogado até a segunda quinzena de maio. A informação foi divulgada pela agência de notícias francesa RFI.
O Itamaraty informou ainda que o ataque israelense ao Líbano constitui mais um exemplo das "reiteradas e inaceitáveis violações ao cessar-fogo" anunciado em 16 de abril
Isso porque, conforme o governo brasileiro, dezenas de civis libaneses, incluindo mulheres e crianças, morreram nesses ataques.
"Ao expressar sinceras condolências aos familiares das vítimas, o Brasil reitera sua mais veemente condenação a todos os ataques perpetrados durante a vigência do cessar-fogo, tanto por parte das forças israelenses quanto do Hezbollah", afirmou o Itamaraty.
O Brasil vem defendendo ao longo das últimas semanas que as tropas israelenses devem deixar imediatamente o Líbano.
Além disso, tem defendido que o cessar-fogo entre Israel e Irã seja estendido ao Líbano, garantindo a soberania do país.
“A família encontrava-se em sua residência, no distrito de Bint Jeil, no Sul do Líbano, no momento do bombardeio”, informou o Itamaraty.
Segundo o ministério, a embaixada brasileira em Beirute está em contato com a família dos brasileiros que morreram no ataque para prestar assistência.
A ofensiva ocorreu após a emissão de um alerta de evacuação para moradores de sete cidades e vilarejos da região.
Segundo o Exército israelense, os ataques foram motivados por “repetidas violações do cessar‑fogo por parte do Hezbollah”, grupo pró‑Irã que atua no sul do Líbano, de acordo com a RFI.
Pelos termos do acordo firmado em abril, Israel mantém o direito de continuar realizando operações militares contra o Hezbollah, mesmo durante o período de cessar‑fogo.
Prorrogação do cessar-fogo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quinta-feira (23) a prorrogação do cessar-fogo entre Israel e Líbano por mais três semanas. A decisão foi tomada após uma nova reunião entre autoridades dos dois países em Washington.
A trégua entrou em vigor em 16 de abril e previa duração inicial de 10 dias. Com a renovação, o cessar-fogo deve durar pelo menos até o início da segunda quinzena de maio. Apesar disso, há dúvidas sobre a efetividade do acordo. Mesmo em vigor, Israel e o Hezbollah trocaram ataques nos últimos dias.
Nesta quinta-feira, por exemplo, o grupo extremista libanês lançou foguetes contra o norte de Israel, que foram interceptados.
Já na quarta-feira (22), pelo menos cinco pessoas morreram em um bombardeio israelense no sul do Líbano. Entre as vítimas está uma jornalista libanesa de 43 anos.

‘O massacre dos idosos’: como doença do filho de chefe de facção no Haiti levou à maior chacina do século nas Américas

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Esta reportagem faz parte do projeto "A Queda de Porto Príncipe", da produtora Dromómanos e da organização Global Initiative.
⚠️ Importante: esta reportagem traz descrições de sequestros e assassinatos que podem ser perturbadoras para alguns leitores.
Mulheres choram no enterro coletivo de oito vítimas de um ataque com drone. O alvo era um suposto chefe de quadrilha de Porto Príncipe, no Haiti, mas o ataque tirou a vida de 11 civis no dia 20 de setembro de 2025
Clarens Siffroy via BBC
O pequeno príncipe Benson está doente.
Seu pai é o rei Micanor, autoproclamado último monarca do Caribe. Ele é o senhor dos cais de Porto Príncipe, "senhor da guerra" do bairro de Wharf Jérémie e da Viv Ansanm, a confederação de facções criminosas que controla a capital do Haiti.
Ele está certo de ter descoberto o motivo. Existem na área homens-lobos, uma espécie de feiticeiros anciãos. Eles têm o poder de se transfigurar em animais para atacar à noite e uma capacidade especial de fazer adoecer e matar crianças.
O rei decide, então, que, para salvar seu filho, suas hostes precisam sair à caça desses feiticeiros.
Sébastien é um homem forte e rústico de 32 anos. Em uma das casas, ele está debaixo da cama da sua mãe e observa dois homens a levarem embora.
Em outra, a avó de Evelyn diz: "Que ninguém fale nada. Escondam-se, todos." A anciã abre a porta e é raptada.
O avô de Sheila também é levado embora. Quando ela sai para averiguar sobre seu paradeiro, o ancião já está morto.
Manú também procura seus pais, que não atendem o telefone. No dia seguinte, ele descobre que seu pai foi desmembrado a golpes de facão.
Os bandidos de Micanor matam ainda o tio e o primo de Dustin. Ele conta a história com dois buracos de bala no corpo.
O príncipe Benson Altes morre na madrugada de 7 de dezembro de 2024. Ele tinha seis anos.
Durante seis dias, seu pai tira a vida de 207 pessoas. A maioria tinha mais de 60 anos. Ele os corta com facão, faz os corpos desaparecerem com fogo ou os joga no fundo do mar.
A busca por sobreviventes
Vídeos em alta no g1
No final de fevereiro de 2025, três meses depois do massacre em Porto Príncipe, consigo agendar uma reunião com a advogada Rosie Auguste Ducéna, chefe da Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (RNDDH, na sigla em francês). Mas chegar até lá é complicado.
A capital haitiana é a cidade mais violenta do país mais pobre e violento do continente americano. E 90% de Porto Príncipe está, há mais de um ano, sob o controle da Viv Ansanm, a maior confederação de gangues criminosas já vista na região.
Desde 29 de fevereiro de 2024, os bandidos tomaram posse de um bairro atrás do outro, queimando delegacias de polícia, estações de rádio locais, escolas, edifícios governamentais, cemitérios, estradas… Eles devastaram a cidade.
Os 10% que resistem à ofensiva são defendidos pelo pouco que resta do Estado haitiano, uma missão internacional comandada pelo Quênia, civis e pelos homens comandados por pessoas como o ex-policial Samuel Joasil, o mais conhecido de todos.
Estas brigadas montam barricadas quase todos os dias, colocam carros queimados, portões improvisados, cercas de arame farpado ou fogo em pneus para impedir a entrada dos bandidos e fazer com que eles, se conseguirem entrar, se movimentem com lentidão.
Assim, eles poderão caçá-los, matá-los e, em muitos casos, queimá-los.
A mobilidade também é difícil para nós, que estamos nesta espécie de fortaleza.
Homem passa perto de um cadáver atirado em uma vala de Porto Príncipe, em 19 de outubro de 2025
Clarens Siffroy via BBC
Converso por telefone com Rosie Auguste desde a minha chegada a Porto Príncipe, no final de fevereiro de 2025. Mas é apenas em meados de março que consigo finalmente me sentar em frente a ela, no seu escritório.
"Não sei, ninguém sabe por que os bandidos fazem o que fazem", responde ela, quando pergunto o motivo do massacre em Wharf Jérémie.
Rosie Auguste é uma das maiores especialistas nas gangues e na violência de Porto Príncipe. Ela acredita que esta é uma forma de pressão para fazer com que a cidade caia com mais rapidez.
"Terroristas", segundo ela.
Ela também considera que os senhores da guerra elaboram a estratégia, mas não controlam as hostes de adolescentes que, embriagados pela adrenalina e pelo poder, acabam assolando a população de forma arrepiante. E acrescenta que os anos vivendo entre a violência deformam esses meninos.
Mas, como os demais especialistas, ela acredita, suspeita, intui, mas não sabe ao certo.
Rosie Auguste está visivelmente perturbada. Ela chama os bandidos da Viv Ansanm de covardes. Diz que eles atacam a população antes do governo.
"Eles sabem onde está o primeiro-ministro, onde moram os funcionários, mas preferem atacar mulheres e crianças desarmadas", ela conta, com a testa franzida. "Fazem violações em massa em frente a todo mundo e matam bebês."
Ela documenta e denuncia há anos, não apenas as barbáries das gangues. Ela também acusa o Estado haitiano de passividade, permissividade e conluio.
Por isso, Rosie Auguste acredita que sua vida esteja em risco. Ela não seria a primeira pessoa assassinada por documentar esta situação.
Tento entrevistar sobreviventes do massacre desde a minha chegada. Mas um jornalista local me diz que é impossível.
Ele conta que não se pode entrar em Wharf Jérémie porque o rei Micanor ficou paranoico e levou seus homens com ele.
O jornalista também afirma que os sobreviventes não podem sair do bairro. Micanor montou barreiras que controlam a saída das pessoas e retêm os celulares dos moradores. E os que conseguiram fugir para outros bairros ou para campos de refugiados improvisados correriam sérios riscos.
Peço a Rosie Auguste e ela promete tentar, mas destaca que, para eles, movimentar-se pela cidade seria quase um suicídio. Ela me pede para regressar no início de abril de 2025.
Nesta segunda entrevista, chego ao seu escritório de moto com Ivander, meu guia local.
A cidade está em chamas neste dia. A Viv Ansanm atacou as proximidades da fortaleza à noite e os tiros continuam sendo ouvidos. A brigada do comandante Samuel Joasil está nas ruas, com suas armas de fogo.
Rosie Auguste explica que a devastação da cidade começou com o assassinato do então-presidente do Haiti Jovenel Moïse (1968-2021). Ela conta o trabalho de formiga que sua equipe precisou fazer, arriscando a própria vida, para preparar o relatório sobre o massacre de Wharf Jérémie.
No final da nossa conversa, ela entrega um documento muito detalhado, com mais de 120 testemunhos. E me pergunta: "Onde você quer fazer as entrevistas?"
Frente ao meu assombro, ela abre uma porta e me mostra cinco pessoas sentadas em um banco, com olhar assustado.
Em um ato insólito de valentia, eles cruzaram uma cidade em guerra, atravessando barricadas, fogo e balas. Eles se arriscaram a ter a mesma sorte dos seus familiares, para me contar como eles morreram e evitar que sua história termine no mesmo lugar dos seus corpos — ou seja, no fundo do mar do Caribe.
No final das entrevistas, todos afirmam que seguem em contato com os seus, dizem falar com eles em sonhos e observá-los morando em casa, cuidando dos seus filhos, cozinhando sua comida e fugindo com eles pela cidade.
Seus testemunhos, um relatório da rede de organizações locais e outro das Nações Unidas são a base desta reconstrução do ocorrido entre 6 e 11 de dezembro de 2024, quando o rei Micanor perpetrou o maior massacre cometido por uma gangue criminosa no continente americano no século 21.
Foi naqueles dias que os sobreviventes começaram a sonhar.
O rei assassino e a maldição dos anciãos
Mulher chora depois que gangues armadas executaram seu marido em Poste Marchands (Porto Príncipe, no Haiti), no dia 9 de dezembro de 2024
Clarens Siffroy/AFP via Getty Images
Na manhã de 6 de dezembro de 2024, Evelyn e sua família ouvem motos, homens falando alto e batidas na porta. Da rua, eles perguntam pela sua avó.
"Escondam-se e façam silêncio", pede a avó aos seus parentes, enquanto abre a porta.
Um dos homens entra com uma pistola e outro com um facão. Eles a levam em uma das motos.
Aquela foi a última vez em que Evelyn viu a avó com vida.
No fundo do bairro de Wharf Jérémie, perto do mar, já se ouvem tiros. Ninguém da casa se atreve a sair.
Na manhã seguinte, Evelyn e suas irmãs, em um ato de grande temeridade, se esgueiram até Nan Mangue, um pequeno banco de areia ao lado do porto de Wharf Jérémie. Ali, em meio a um grande quebra-cabeça de sangue, dividida pelo facão, elas encontram sua avó.
Há alguns dias, o filho de seis anos do rei Micanor, Benson Altes, tem febre. Nenhum dos meus informantes sabe ao certo qual foi o motivo (uma doença relacionada aos pulmões ou ao estômago), mas ele fica pior em alguns momentos.
Porto Príncipe perdeu para os bandidos quase todas as suas instalações de saúde, públicas e privadas. Nem as ambulâncias da ONG Médicos Sem Fronteiras conseguem chegar aos domínios do rei Micanor, onde foram atacadas a balas em mais de uma ocasião.
Frente ao mal-estar do filho, Micanor chama seu hougan, seu sacerdote vodu pessoal, para salvá-lo.
O sacerdote afirma que Benson está doente por obra do vodu. Segundo ele, trata-se de uma espécie de feitiço lançado por um loup-garou — um homem-lobo, uma espécie de feiticeiro muito temida no Haiti desde a época da colonização.
O sacerdote anônimo (nenhuma fonte ou relatório registra seu nome) também afirma que os anciãos e anciãs do bairro são responsáveis não só pelo sofrimento do pequeno príncipe, como por outras mortes por doenças em Wharf Jérémie.
Para os membros das gangues, os anciãos se transformaram uma espécie de praga. E é assim que irão tratar deles.
Na manhã de 6 de dezembro de 2024, depois de uma longa reunião com o hougan, o rei Micanor decide pôr fim à maldição. Ele reúne suas tropas no quartel da gangue, conhecido como Centro de Treinamento, e manda que sejam trazidos para ali todos os anciãos do bairro.
Sébastien almoça com sua mãe naquele dia. Ele não recorda o que eles comeram, mas supõe que tenha sido arroz. Para muitos na cidade, este é praticamente o único alimento disponível.
O bairro está tenso, como sempre acontece em Porto Príncipe. Eles ouvem tiros, a música de fundo que acompanha a cidade nos últimos cinco anos.
Até que chegam os bandidos.
Jovens, eles chegam de moto, batem à porta e gritam do lado de fora que querem sua mãe. Ela diz a Sébastien que se esconda; ela não pede, mas sim ordena.
Sébastien é grande, tem feições fortes, voz grave e braços largos. Seu pescoço parece o tronco de uma árvore forte e os botões de cima da camisa se esforçam como podem para não sair em disparada a cada respiração dele.
Mas, no dia 6 de dezembro de 2024, este homenzarrão se enfia como pode debaixo da cama da sua mãe e se cobre com suas mantas.
Ele acredita que eles estão vindo para roubar, já que sua mãe e ele são comerciantes e mantêm dinheiro vivo.
Como o rei Micanor é seu vizinho e eles o conhecem há quase duas décadas, ele não imagina que irão matar ninguém do bairro. Talvez sua mãe, sim, e, por isso, ela manda que ele se esconda.
Sébastien observa do seu esconderijo que dois rapazes a levam e a fazem subir em uma moto. E, horas depois, ela fará parte do quebra-cabeça humano que também inclui a avó de Evelyn.
O rei Micanor sequestra neste dia 127 anciãos, 90 homens e 37 mulheres, e os leva para Nan Mangue. Ali, quando cai a noite e tudo fica escuro, seus homens os matam a tiros e facadas.
O hougan recolhe sangue dos sacrificados e guarda em recipientes, ao lado de partes dos seus corpos.
Na tradição vodu, esta é uma forma de conservar a essência, de ficar com alguém e escravizá-lo além das barreiras impostas pela morte. Usando os termos do vodu, aquele homem fica com as almas dos anciãos.
A morte do príncipe e as torturas do rei
Homem observa de pé, no telhado de uma casa destruída no bairro de Solino, em Porto Príncipe (Haiti), no dia 17 de fevereiro de 2026
Clarens Siffroy via BBC
Na madrugada de 7 de dezembro de 2024, morre Benson Altes, o filho do rei Micanor. Mas o sangue derramado na noite anterior não é suficiente para o hougan.
O rei envia seus homens com a ordem clara de matar a todos os familiares próximos dos anciãos.
Eles se espalham por todo o bairro, capturando famílias inteiras.
Cerca de 50 pessoas planejaram fugir pelo mar e, para isso, montaram um barco com tábuas e plástico. Mas, antes de se aventurarem pelo Caribe, eles organizam uma cerimônia para pedir proteção aos loas, as divindades do vodu.
A música e os cânticos chamam a atenção dos homens de Micanor e eles são logo cercados. Ao todo, 57 pessoas são golpeadas e apunhaladas sem serem mortas, sendo conduzidas à mão armada.
Alguns são transportados em motos, outros em veículos pick-up, amarrados e amontoados.
No Centro de Treinamento, o rei Micanor os tortura pessoalmente durante horas, segundo os testemunhos.
Ele chora e sofre. O líder da gangue está ferido e paranoico. Ele Quer saber quem lançou a maldição e onde estão os feiticeiros que mataram seu filho.
Mas ninguém oferece uma resposta satisfatória. Ninguém diz onde os monstros se escondem.
Na madrugada de 8 de dezembro, os reféns começam a ser degolados e desmembrados. Quando o sol nasce, os homens lançam pedaços às chamas. E os restos que o fogo não destrói são atirados ao mar.
Os reis e o vodu
A igreja de Saint Michel fica nos limites de Pétion-Ville, dentro da pequena fortaleza que ainda resta em Porto Príncipe. Nela, dezenas de homens e mulheres levantam as mãos e as agitam no ar.
Os tambores soam como trovões. A fumaça sobe e vozes graves escapam de uma cabana de madeira.
Eles me olham com desconfiança, mas ninguém se anima a me expulsar dali ou me fazer mal. É um lugar sagrado e eles não irão manchá-lo, ainda mais com sangue de branco.
O dia é 5 de março de 2025. Neste hounfor, ou igreja vodu, é celebrado um rito a Ezili, a família de loas associada à fertilidade, à força da maternidade, à sensualidade, ao feminino, à dança e à proteção.
Um grupo carrega uma mulher jovem com síndrome de Down. Imóvel, ela brilha como um pássaro grande com as asas em crescimento.
A jovem não fala. Ela apenas baba e emite uma espécie de grunhido doloroso.
Ela foi recolhida da rua, onde vive ao lado de uma lixeira. Eles a vestiram e calçaram da melhor forma possível e organizaram este evento para ela.
Seu objetivo é pedir a Ezili que a proteja, que a acompanhe, que a perdoe. A mulher está grávida e dará à luz nos próximos dias.
Os devotos também exigem paz aos gritos e pedem aos loas que deem esperança e os ajudem a sobreviver.
Eles pedem que a Viv Ansanm não entre e, se o fizerem, que eles possam derrotá-la.
Cadáver arde sob pneus em uma rua do centro de Porto Príncipe, no dia 9 de fevereiro de 2026
Clarens Siffroy via BBC
O vodu é uma das religiões mais estigmatizadas do continente americano.
Segundo Alfred Métraux, um dos antropólogos pioneiros no seu estudo, trata-se de um conjunto de crenças híbridas entre credos africanos, inicialmente, e a fé católica dos escravagistas que chegaram à América.
Seria muito difícil explicar nesta reportagem as profundas raízes do vodu. Basicamente, é uma religião criada de baixo, com uma relação profunda e terna com a natureza e os mortos.
Nesta tradição, os mortos não vão embora. Eles ficam e fazem parte importante da vida cotidiana.
Eles regressam em sonhos, confortam os vivos e, com o passar do tempo, se tornam divindades. É desta forma que o panteão haitiano vai crescendo, até se tornar impossível de relacionar.
O vodu não tem relação com a violência ou, pelo menos, não mais que as religiões judaico-cristãs e muçulmanas. Ele se desenvolveu como motor ideológico e espiritual da revolução haitiana do final do século 18.
Foi depois de um ritual organizado por uma mulher que as pessoas escravizadas destruíram o sistema de fazendas escravagistas mantido pelos franceses em 1791.
Assim foi fundado o Haiti, após a primeira revolução bem sucedida de pessoas escravizadas do continente americano, a primeira declaração de independência da América Latina e a segunda do continente, depois dos Estados Unidos.
Por isso, o vodu foi e, de certa forma, continua sendo uma religião eminentemente anti-imperialista.
O bairro de Solino, em Porto Príncipe, foi alvo de ataques das gangues em dezembro de 2024
Clarens Siffroy via BBC
Mas, como todas as religiões, o vodu também foi usado para oprimir ainda mais aqueles que já são oprimidos.
Usar o vodu como arma para subjugar as pessoas não é criação do rei Micanor. Dezenas de senhores da guerra se orgulham de serem hougan e terem a proteção dos loas.
O primeiro a observar o potencial da fé para reprimir os haitianos talvez tenha sido François Duvalier (1907-1971), o ex-ditador do país conhecido como Papa Doc.
Seu aterrorizante regime durou de 1957 até a sua morte e teve dois pilares. O primeiro foi a criação do grupo paramilitar Tontons Macoutes, que assassinava seus opositores e impunha o terror nos bairros. O segundo foi o vodu.
Duvalier se gabava de não ser mais um hougan, mas sim um loa; especificamente, Baron Samedi, o senhor dos cemitérios, que protege a entrada para o mundo dos mortos.
Ele se apresentava com a indumentária clássica daquele espírito e, segundo os haitianos, falava como os loas e os mortos: com tom nasal.
Os 14 anos de governo de Duvalier deixaram um rastro de morte pelo Haiti, estabelecendo uma forma de fazer política que prevalece até hoje no país.
Pode-se dizer, de forma simplista, que a Viv Ansanm é a herança de Papa Doc e que seus senhores da guerra místicos e paranoicos são seu legado.
Quando o rei Micanor decide assassinar seus vizinhos, em 6 de dezembro, não se trata de uma inovação das formas de barbárie. Ele segue uma tradição política iniciada antes mesmo que ele tivesse nascido.
A paranoia do rei e os 'homens-lobos'
Pessoas fogem da violência no distrito Kenskof em Porto Príncipe, no dia 29 de janeiro de 2025
Clarens Siffroy
No dia 9 de dezembro, as pessoas ficam sem comunicação em Wharf Jérémie.
Frente à cobertura da matança na imprensa local e nas redes sociais, o rei Micanor ordena o confisco dos telefones celulares de toda a população.
Seus homens sequestram outras 60 pessoas, que foram levadas ao Centro de Treinamento. Lá, elas são torturadas e interrogadas.
O líder quer saber quem vazou a informação para a imprensa e para a organização de direitos humanos com quem entrei em contrato meses depois, em março e abril de 2025.
A gangue impõe o toque de recolher no bairro. "Ninguém sai, ninguém entra!", ordenam os bandidos aos gritos pelas ruas.
Manú está longe do arquétipo que temos do refugiado. Ele usa camisa social, óculos e sapatos brilhantes. Fala inglês e, por isso, consigo falar com ele sem filtros.
Ele conta que mora em outro bairro (omitimos o nome do local por questões de segurança) e visitava frequentemente seus pais em Wharf Jérémie.
Ele podia entrar e sair sem ser molestado pelos bandidos do rei. Este é um privilégio pouco comum.
Seus pais tinham ali um bom negócio. Por ser porto, havia muito movimento e a possibilidade de obter produtos antes que eles subissem de preço ao adentrar no país.
No dia 6 de dezembro, Manú ligou para seus pais e eles não atenderam. E, como já circulavam rumores sobre algo estranho acontecendo no bairro, ele se aventurou e conseguiu entrar em Wharf Jérémie no dia seguinte.
Sua mãe o recebeu em casa com a notícia de que, no dia anterior, homens de motocicleta haviam levado seu pai. E, apesar do toque de recolher, ele saiu para verificar o que havia acontecido com ele.
Manú descobriu que o pai foi desmembrado, suas partes foram queimadas e o que restou foi atirado ao mar. E também disseram a ele que estavam matando todas as pessoas com mais de 60 anos.
Sua mãe tinha mais de 70. Por isso, Manú a escondeu como pôde e, no dia 9 de dezembro, ele a retirou de casa às escondidas.
Mas ela ficou doente, parou de comer e morreu na noite de Natal. "Morreu de tristeza", lamenta Manú.
No seu funeral, ao lado do caixão da mãe, ele enterra outro caixão com coisas do seu pai. Assim, ele se despede deles, explicando que eles voltaram para um mundo aonde a raiva do rei não consegue chegar: o mundo dos sonhos.
"Meus filhos são muito pequenos e não se lembrarão deles, mas eles cuidam dos meus filhos", afirma ele.
É neste ponto que o choro irrompe e destrói a fria compostura do burocrata.
O líder de gangue Jimmy Chérizier, conhecido como Barbecue, ao lado de uma moradora de uma região de Porto Príncipe controlada por ele, no dia 6 de julho de 2026
Clarens Siffroy
Na tarde de 9 de dezembro, os bandidos do rei Micanor capturam três homens e duas mulheres que tentavam fugir de Wharf Jérémie e atiram no ato.
Os tiros não têm relação com o vodu e os homens-lobos. O rei quer impedir de todas as formas que se saiba mais sobre o massacre. Por isso, ele proíbe que as pessoas saiam de casa e falem com os vizinhos.
Mas é muito difícil ocultar mais de 200 assassinatos, mesmo com o fogo e o mar como aliados. A notícia vaza, algumas pessoas mandam vídeos para familiares fora do bairro e as imagens são compartilhadas com jornalistas locais ou nas redes sociais.
Jimmy Chérizier, conocido como Barbecue ("churrasco", em inglês) é o homem que se apresentou ao mundo como porta-voz e líder da Viv Ansanm. Ele e outros chefes da confederação pedem respostas.
Cada senhor da guerra tem autonomia sobre o "seu" território, mas uma matança deste calibre exige pelo menos uma explicação.
Analistas especializados das Nações Unidas interceptaram uma mensagem do rei para a alta cúpula da Viv Ansanm, em referência ao ocorrido:
Olá, colegas da Viv Ansanm. Saudações, sou o rei Micanor.
Vou contar sobre o incidente na minha região.
Muitas pessoas dizem que cometi um massacre e falam em assassinatos. As vítimas são feiticeiros (homens-lobos). A coalizão Viv Ansanm não colabora com este tipo de pessoas.
Podem imaginar que tenho um filho que nasceu sadio e que os anciãos da região conspiraram para matá-lo, lançando feitiços místicos contra ele?
Em um caso como este, não posso permanecer impassível; preciso me vingar. Em todas as bases da Viv Ansanm, exterminaremos os feiticeiros e limparemos a região.
Ouvi muitas mensagens na imprensa e de organizações de direitos humanos.
Vocês sabem onde moro, quem eu sou. Vocês devem vir me buscar, são covardes, estou esperando vocês, venham me buscar. Assumo toda a responsabilidade pelo que fiz.
Os anciãos mataram meu filho, vocês acham que eu não iria reagir? Um filho que amo tanto. Vocês não são pais do menino e, por isso, são insensíveis à dor.
Eu, o rei Micanor, não cometi pessoalmente nenhum abuso; as pessoas que foram assassinadas estão realmente mortas. Se outros devem ser assassinados, também morrerão. Todas as gangues da Viv Ansanm caçarão os homens-lobos (feiticeiros).
Dada a explicação, ele prosseguiu com o massacre.
'Você mata os meus, eu mato os seus'
O bairro amanhece em silêncio. Ninguém quer falar alto para não alertar os bandidos sobre sua presença.
"Os mais perigosos são os meninos, porque querem demonstrar seu poder e podem fazer mal só para isso", explica Evelyn, a primeira sobrevivente que entrevisto.
Os homens do rei tomam as ruas e procuram alguém a quem matar. Um deles é Dustin. Magro e com cerca de 30 anos, ele manca, com uma perna enfaixada e o apoio de uma muleta.
Dustin trabalhava com seu tio e seu primo em uma pequena oficina, o que lhe dava acesso ao bairro. Mas ele também confessa ter boas relações com a gangue do rei Micanor.
Quando ali chegou, no dia 7 de dezembro, seu tio e seu primo já tinham sido assassinados. Ainda assim, decidiu ficar com a gangue, segundo ele, por medo de ser tomado por delator.
Mas ele garante não ter se envolvido no massacre. E, como prova, mostra os dois buracos de bala no seu corpo.
Ele conta que os bandidos se queixaram por ele não ter cumprido a ordem do rei. Todos tinham que matar.
Alguns chegaram até a fazer tratos para evitar derramar o próprio sangue: "Você mata os meus, eu mato os seus."
Aparentemente, eles não consideraram justo que Dustin se salvasse daquela condenação.
No dia 10 de dezembro, um dos homens de escalão intermediário do rei Micanor pede que ele estenda a mão e, como castigo, dispara no centro da sua palma.
Outro aponta uma arma para sua cabeça, Dustin se move, o bandido aperta o gatilho e o atinge na perna. Mas ele continua correndo e consegue escapar.
Um jovem membro de gangue de 14 anos patrulha as ruas do bairro Mariani de Porto Príncipe, no Haiti, no dia 6 de outubro de 2025
Clarens Siffroy via BBC
Agora, Dustin mora como refugiado em algum lugar da fortaleza que ainda resiste em Porto Príncipe. Suas feridas parecem ter se infectado.
Se os homens das brigadas de autodefesa o capturarem e descobrirem seu vínculo com a Viv Ansanm, eles o levarão para a cuisine ("cozinha" em francês), na esquina da rua 27 e da Bois Patate, em frente ao supermercado abandonado Tag Supermarket, no bairro de Canapé Vert, o feudo do comandante Samuel Joasin e suas brigadas.
Eles darão facadas suficientes para que ele não possa se mover, colocarão pneus no seu pescoço e atearão fogo. Esta prática se chama bwa kale e é o destino dos bandidos capturados pela brigada.
A paranoia do rei e sua obsessão para evitar que a notícia da matança continue se propagando fazem com que ele fique ainda mais desconfiado.
Ele encontra oito homens e cinco mulheres que ainda conservam seus telefones. Eles são acusados de terem falado com jornalistas e levados para Nan Mangue, onde os primeiros grupos foram mortos.
Ali, ele os tortura, mata e seus corpos têm o mesmo destino dos demais: facões, fogo e água salgada.
O rei louco e os sonhos
A cabeça do líder é uma loteria. E a notícia do massacre se espalha por toda a capital.
"O rei Micanor ficou louco", comentam as pessoas nos bairros controlados pelos bandidos, incluindo na sua fortaleza.
Uma pessoa detém informações de inteligência estrangeira e explica que a Viv Ansanm considerou derrubá-lo e substituí-lo por alguém mais confiável, menos imprevisível, à frente de Wharf Jérémie.
A mesma fonte me diz que o rei ficou sabendo ou intuiu a respeito e quis demonstrar que detinha o controle do bairro e da sua própria cabeça.
No dia 11 de dezembro, ele liberta as 60 pessoas raptadas dois dias antes e ordena aos seus homens que preparem sacos com arroz, feijão, absorventes higiênicos e outros produtos mais.
O rei obriga as pessoas a saírem de casa e faz a distribuição. Ele ordena que elas gritem seu nome e agradeçam porque, embora não tenha conseguido salvar seu filho, ele protegeu as outras crianças do bairro contra os homens-lobos.
Pessoas fazem busca entre o que ficou para trás no incêndio em um campo de deslocados em Porto Príncipe, no Haiti, em 21 de dezembro de 2025
Clarens Siffroy via BBC
"Viva o rei Micanor!", grita Sheila, obrigada, enquanto mostra um saco de arroz para a câmera do telefone celular de um bandido.
No dia 5 de dezembro, ela havia ido com seu avô para o mercado. Eles compraram chaco, um vegetal parecido com a mandioca, e cozinharam para comer juntos.
Sobrou um pouco, mas ela acredita que, quando seu avô foi levado para ser morto, na tarde de 6 de dezembro, ao lado de outros 126 anciãos, ele havia almoçado o que eles prepararam juntos na véspera.
Em 11 de dezembro, o rei Micanor já havia matado 202 pessoas. Mas, apesar dos sequestros, torturas e assassinatos, do toque de recolher e do arroz distribuído, os bandidos dizem que há um novo vídeo nas redes sociais, onde vozes femininas narram o ocorrido nos últimos dias.
Frente a isso, ele ordena a captura de cinco mulheres e as leva para o Centro de Treinamento. Lá, elas são torturadas e transportadas para Nan Mangue.
Essas cinco mulheres compartilham o mar com os restos de Jacinthe, Marcel, Grette, Magarette, Mimose, Ellionise, Montellas, Charita, Marthe, Adeline, Amadide, Charléus, Euvanie, Milou, Immacula, Olympia, Umaliance, Milot, Jacqueline, Dieuvé, Bénita, Roosevelt, Jean, Rosiane… e outras 173 pessoas cujos nomes os relatórios não registram por questões de segurança.
Nesta cidade de bandidos, o falso rei massacrou os anciãos e, com eles, a memória do bairro.
Mas os sobreviventes afirmam que seus entes queridos retornam todas as noites em sonhos. E, com eles, vem também o passado.
O falso rei e a impunidade
Micanor não é um rei, é apenas um homem que governa impunemente um pedaço de mundo em uma ilha no Caribe. Ele nem mesmo é o fundador da sua gangue.
Segundo uma pessoa que pertenceu ao grupo, Micanor era o terceiro em comando, um elemento muito violento e rápido no gatilho, ou facão. Por isso, nunca confiaram nele, pois sempre foi paranoico, influenciável e instável, segundo contam.
Em 2008, este senhor da miséria matou sua própria mambo (sacerdotisa vodu) para, segundo ele, obter seu poder. E, em 2012, acabou com 12 pessoas acusadas por ele de serem feiticeiros.
Os dois líderes que os antecederam morreram perto de 2015, nas guerras fratricidas das gangues da capital. Elas disputavam entre si o controle dos espaços miseráveis da cidade e das pessoas pobres que moravam neles, antes da Viv Ansanm.
A tarde deste dia de abril de 2025 vai se apagando em Porto Príncipe e a Viv Ansanm ataca os extremos da fortaleza.
Faço a quinta entrevista da tarde. Ouvem-se tiros ao longe e, pela janela, pode-se ver colunas de fumaça subindo em direção ao céu.
A brigada fechará as ruas em breve para se proteger das multidões raivosas da grande confederação de bandidos.
Veículo armado da patrulha Bas Delmas, em Porto Príncipe, no Haiti, em 12 de fevereiro de 2026
Clarens Siffroy via BBC
Dustin fala devagar, usando gíria e com forte sotaque. É difícil entender o que ele fala.
Mas o homem está contando sobre a morte do seu tio e do seu primo e como ele precisou caminhar por mais de uma hora com a perna ferida e a mão destroçada para contar esta história. Por isso, não convém interrompê-lo.
Ao término das entrevistas, saímos correndo na moto do guia Ivander. Algumas barricadas já estão instaladas, mas conseguimos evitá-las.
A fortaleza põe à mostra seus espinhos e se prepara para sobreviver por mais uma noite.
As testemunhas do "massacre dos idosos", agora, dormirão aqui, pois não podem mais regressar para os seus lares. Amanhã, eles tentarão voltar sem serem assassinados ou capturados pela Viv Ansanm ou pelas brigadas de vigilantes.
Quase um ano e meio depois, quando escrevo esta reportagem, o massacre de Wharf Jérémie permanece impune, mesmo com todos os testemunhos e evidências que indicam o responsável pelo assassinato de 207 haitianos, em sua maioria anciãos: o autodenominado último monarca do Caribe, o senhor dos cais, um simples bandido chamado Monel Félix Altes.
Mò yo pa janm ale
Yo la toujou
Yo dòmi nan dlo
Yo mache nan rèv nou
(Os mortos nunca se vão.
Sempre estão aqui.
Dormem na água.
Caminham nos nossos sonhos.)
Canção tradicional fúnebre do vodu haitiano.
Os nomes dos sobreviventes foram alterados nesta reportagem por razões de segurança.
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Coreia do Norte aproveita a guerra no Oriente Médio para reforçar arsenal nuclear

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A Coreia do Norte tem aproveitado a guerra no Oriente Médio para acelerar o desenvolvimento de armas e reforçar o status nuclear do país, em um cenário de enfraquecimento das normas internacionais, avaliam analistas.
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Desde o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, no fim de fevereiro, Pyongyang realizou cinco lançamentos de mísseis, segundo levantamento da AFP.
Os testes ocorrem após o líder norte-coreano, Kim Jong-un, prometer ampliar as capacidades nucleares do país. O movimento acontece em meio à aproximação com a Rússia e ao aumento da retórica contra a Coreia do Sul.
Para Lim Eul-chul, especialista em Coreia do Norte da Universidade Kyungnam, na Coreia do Sul, os lançamentos parecem fazer parte de uma estratégia para adaptar o avanço militar às mudanças na relação entre Estados Unidos, Rússia e China.
"O atual panorama da segurança global se transformou em uma 'terra sem lei', onde as normas internacionais existentes já não funcionam. E a Coreia do Norte aproveita esse vazio para completar o seu arsenal nuclear", diz.
A Coreia do Norte condenou os ataques dos Estados Unidos contra o Irã, mas evitou críticas diretas ao presidente americano, Donald Trump. Não há indicação de envio de armas norte-coreanas a Teerã.
Trump deve viajar à China para uma cúpula em maio, e há especulações sobre um possível encontro com Kim.
De acordo com Hong Min, pesquisador do Instituto Coreano para a Unificação Nacional, Pyongyang pode ter aproveitado o momento para reforçar a mensagem de que é um Estado nuclear irreversível.
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‘Irreversível e permanente’
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KCNA via Reuters
A atual onda de lançamentos de mísseis começou pouco depois do congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte, realizado em fevereiro. O encontro, que ocorre a cada cinco anos, define as prioridades do país.
Durante o congresso, Kim Jong Un afirmou que a posição da Coreia do Norte como Estado com armas nucleares foi consolidada como “irreversível e permanente”.
Segundo Hong Min, o momento escolhido indica que Pyongyang busca “acumular conquistas visíveis” em suas capacidades militares.
Os testes incluíram mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro antinavio e munições de fragmentação.
Analistas ouvidos pela AFP afirmam que as manobras demonstram avanços técnicos e maior domínio de armas de uso dual, capazes de operar tanto em funções nucleares quanto convencionais.
Há indícios, segundo Lim Eul-chul, de progresso na miniaturização de ogivas nucleares e na capacidade de realizar “ataques de saturação”, estratégia baseada no lançamento simultâneo de grande quantidade de projéteis para sobrecarregar sistemas inimigos de interceptação.
O especialista avalia que Pyongyang deve manter os testes de mísseis balísticos.
"O regime considera que, enquanto os Estados Unidos estiverem envolvidos no Oriente Médio, este é o momento ideal para acelerar sua dissuasão ofensiva e o desenvolvimento paralelo de forças nucleares e convencionais", afirma o especialista.
Respaldo da Rússia
O líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un, durante uma cerimônia de despedida do presidente da Rússia, Vladimir Putin, no aeroporto de Pyongyang, Coreia do Norte, em 19 de junho de 2024
Sputnik/Gavriil Grigorov/Pool via REUTERS
A Coreia do Norte também busca demonstrar o apoio recebido da Rússia, que teria fornecido assistência econômica e técnica em troca do envio de milhares de soldados para apoiar a invasão da Ucrânia.
Pyongyang e Moscou inauguraram recentemente a primeira ponte rodoviária entre os dois países, além da construção de um “hospital da amizade” e de um complexo militar norte-coreano em homenagem à guerra.
Os ministros da Defesa, do Interior, dos Recursos Naturais e da Saúde da Rússia, assim como o presidente da Câmara e outras autoridades visitaram a Coreia do Norte recentemente, que permanece diplomaticamente isolada do resto do mundo.
Segundo relatos, o embaixador norte-coreano em Moscou chegou a discutir cooperação agrícola com o dirigente instalado pela Rússia na região ucraniana de Kherson, sob ocupação russa.
"A Coreia do Norte é um dos poucos países que não teria medo de operar na Ucrânia ocupada, e ambos os lados estão se aproveitando disso", observa Fyodor Tertitskiy, acadêmico nascido na Rússia e professor na Universidade da Coreia, em Seul, especialista no Norte.
Os laços culturais também se intensificaram. A Rússia recebeu recentemente uma exposição de arte norte-coreana que exalta a guerra na Ucrânia.
"Não há um 'boom' nem um aumento brusco, mas sempre há clientes interessados nesse país", relata Olga, administradora de uma agência de viagens russa que oferece excursões à Coreia do Norte. Um pacote custa cerca de R$ 7,5 mil.
Tertitskiy, no entanto, avalia que a aproximação pode não durar além do conflito. Segundo ele, o presidente russo, Vladimir Putin, precisa principalmente de munição, enquanto outros aspectos da relação permanecem secundários.
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Médicos Sem Fronteiras denuncia Israel por uso de água como arma de guerra em Gaza

Médicos Sem Fronteiras denuncia Israel por uso de água como arma de guerra em Gaza
Abastecimento de água de forma alternativa em Gaza
Nour Alsaqqa/Médicos Sem Fronteira
Um relatório divulgado nesta terça-feira (28) pelos Médicos Sem Fronteiras (MSF) acusa Israel de usar o acesso à água como “arma de guerra” e instrumento de punição coletiva contra os palestinos na Faixa de Gaza.
Segundo a organização, a privação de água, saneamento e higiene não é um efeito colateral do conflito, mas parte de uma política sistemática que impõe “condições destrutivas e desumanas de vida” à população civil .
No documento 'Água como arma: destruição e privação de água e saneamento por Israel em Gaza', a MSF afirma que a estratégia se sustenta em três frentes principais:
destruição da infraestrutura hídrica;
impedimento do acesso humanitário;
bloqueio da entrada de suprimentos essenciais.
Ataque de Israel contra terroristas atinge palestinos que faziam fila por água em Gaza
De acordo com o relatório, quase 90% da infraestrutura de água e saneamento de Gaza foi destruída ou danificada, incluindo usinas de dessalinização, poços, tubulações e sistemas de esgoto. A organização relata ainda ataques a caminhões-pipa e poços identificados com o logotipo da própria MSF durante distribuições de água, colocando civis e trabalhadores humanitários em risco .
As ordens de deslocamento forçado também são apontadas como fator central. De acordo com a organização, em julho de 2025, 87% do território estava sob ordens de “evacuação” ou controle militar israelense. Em março de 2026, cerca de 58% da Faixa de Gaza seguia inacessível para a população e para equipes humanitárias, o que impedia reparos e operação de estruturas essenciais .
Outro ponto destacado é o bloqueio de insumos básicos. Desde outubro de 2023, eletricidade, combustível, geradores, bombas, cloro e unidades de dessalinização tiveram entrada restringida ou negada. Desde 1º de janeiro de 2026, segundo a MSF, todos os pedidos da entidade para entrada de suprimentos pelo sistema controlado por Israel foram rejeitados .
A consequência, segundo a organização, é uma escassez de água “fabricada”. Mesmo sendo a maior produtora não governamental de água potável em Gaza, a MSF relata que, entre maio e novembro de 2025, uma em cada cinco distribuições terminou com pessoas ainda na fila sem conseguir abastecimento .
O impacto aparece também na saúde. Entre maio e agosto de 2025, quase um em cada quatro moradores entrevistados relatou doenças gastrointestinais no mês anterior. Em 2025, doenças de pele, infecções respiratórias e diarreia passaram a liderar os atendimentos médicos da organização, especialmente entre crianças .
A MSF pede que Israel restabeleça imediatamente o acesso à água e suspenda as restrições à ajuda humanitária. A organização também cobra que países aliados usem pressão política, econômica e jurídica para impedir o que classifica como “uso da água como arma” e garantir a proteção da população civil em Gaza.